Crocodila traz body horror feminino ao Brasil: “Mulher tem corpo mutante”
Gabriela Amaral Almeida fala ao Omelete sobre o filme estrelado por Bianca Comparato
Créditos da imagem: Imagem de Crocodila (Reprodução)
Depois de conquistar a França (com Grave, de Julia Ducournau), os EUA (com A Substância, de Coralie Fargeat) e a Noruega (com A Meia-Irmã Feia, de Emilie Blichfeldt), a onda do body horror escrito e dirigido por mulheres vai finalmente impactar o Brasil. A responsável por isso, é claro, é Gabriela Amaral Almeida, que prepara no filme Crocodila uma interpretação brasileira do fenômeno.
A trama é estrelada por Bianca Comparato como uma corretora de luxo no Rio de Janeiro (RJ), que aos poucos percebe uma transformação arrepiante em seu corpo: ela está deixando de ser humana, e se tornando um crocodilo. Faminta por carne humana, a protagonista sai em uma caçada que dobra como análise das diferenças sociais no Brasil – as classes econômicas transformadas em cadeia alimentar, literalmente.
“[O body horror] é um gênero que alegoriza muita coisa que a mulher sofre. [O corpo feminino] é um corpo que, por exemplo, não lhe pertence; é um corpo legislado pelos outros”, comenta Almeida ao Omelete. “Acho que é muito natural – e aí é uma hipótese, não é uma tese – que mulheres contem histórias de horror corporal, porque nosso corpo não tem muita fronteira, sabe? Ele é muito invadido”.
Confira a seguir o trecho completo da entrevista, na qual Almeida fala de Crocodila e de seus parentescos com outros filmes de body horror femininos. O longa ainda não tem data de estreia definida nos cinemas.
OMELETE: Eu adorei a sinopse de Crocodila quando li, a coisa toda do horror corporal, ela se transformando num réptil, mas também relacionado à questão dos conflitos de classe. Como essa ideia nasceu para você, qual foi o impulso dela e o que ela te diz?
ALMEIDA: Eu gosto muito de A Metamorfose, do [escritor tcheco Franz] Kafka. Gosto muito desse livro e da naturalização que o Kafka constrói em torno de um inseto, de um bicho que surge e tem que continuar trabalhando, tem que continuar funcionando. Esse aspecto muito surrealista, ou pós-surrealista de A Metamorfose me interessa muito. E aí a ideia de Crocodila me surge porque eu queria contar uma história no seio das altas classes, digamos assim, culturais brasileiras. Ou seja, de quem controla a cultura, de quem controla as artes, as "altas artes" – entre aspas – no Brasil. Queria contar uma história no seio dessa classe, então me veio a ideia da cadeia alimentar, do bicho que está no topo da cadeia. O crocodilo não tem predador, ele só preda. E aí uma coisa foi puxando a outra, e me veio a ideia de trabalhar uma história de uma mulher, herdeira carioca, que faz parte dessa classe, e que já é um predador em algum sentido, mas que começa a se transformar num bicho. E é um bicho literalmente, que obviamente vai chamar atenção. Ela precisa sobreviver dentro dessa classe, senão ela vai ser expulsa, e ela precisa comer. A comida desse bicho é gente, é carne humana, então se instaura um dilema de quem vai ser o bicho que ela vai predar, digamos assim.
OMELETE: Legal! Bom, obviamente, a coisa do horror corporal é muito forte no terror há muito tempo, mas nos últimos anos a gente tem visto ele ganhando ainda mais destaque: Grave, A Substância, A Meia-Irmã Feia… Por que você acha que o horror corporal está voltando tão forte assim, e como isso te inspirou a fazer o Crocodila?
ALMEIDA: Você falou três filmes dirigidos por três mulheres, né? Eu acho que a mulher passa por mudanças que são meio body horror durante a vida. Esse é um gênero que alegoriza muita coisa que a mulher sofre. É um corpo que, por exemplo, não lhe pertence; é legislado pelos outros. Tem a questão do aborto, todo mundo debatendo o corpo da mulher. É um corpo violado, um corpo que passa por mutações biológicas mensalmente [na menstruação] ou durante a vida, no caso da gravidez. É um corpo mutante. Então eu acho que é muito natural – e aí é uma hipótese, não é uma tese – que mulheres contem histórias de horror corporal, porque nosso corpo não tem muita fronteira, sabe? Ele é muito invadido. Eu já pensei muito a respeito disso, e acho que é porque eu acho que nosso corpo é julgado o tempo inteiro. Quando você faz uma história de horror corporal, você está colocando na arena a mudança do corpo feminino, você estuda como a mudança corporal muda o entorno dessas mulheres também. Eu acho que o body horror é um gênero muito feminino por natureza, e como há mais mulheres diretoras hoje e muitas mulheres interessadas em dirigir horror, acho que é inevitável que se tenha essa estatística de muitos filmes de horror corporal chamando a atenção do público.
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