Your Mother Your Mother Your Mother desenha a linha entre justiça e responsabilidade
Mahershala Ali vive um mercenário que precisa aprender a ser pai no filme
Créditos da imagem: Cena de Your Mother Your Mother Your Mother (Reprodução)
Your Mother Your Mother Your Mother não tem muitas cenas de ação, mas você com certeza vai se lembrar delas. A grande virtude do diretor Bassam Tariq (parceiro criativo de Riz Ahmed em Mogul Mowgli e A Isca), afinal, é criar um clima, e cada explosão de adrenalina é acompanhada de uma enxurrada de sensações que ele levanta para antes e depois dela: seja na tensão palpável de um herói caminhando na direção do que sem dúvida é uma armadilha, no espanto de uma jovem frente a frente com a violência pela primeira vez, ou na catarse de uma revanche bem realizada, Your Mother usa a ação como instrumento de liberação de todas as emoções que trabalha em seus momentos mais serenos.
Faz todo o sentido para a história de Latif (Mahershala Ali), um assassino de aluguel – com princípios, é claro – que precisa encarar uma missão completamente diferente após o falecimento da esposa: a de ser pai solo para os três filhos do casal. A adolescente Fatiha (Adia) está começando a explorar sua sexualidade, e é esperta o bastante para farejar as mentiras do pai; seu irmão mais novo, Qadir (Jahleel Kamara), é o mais religioso da família, que segue o islamismo de forma pouco assídua, o que causa seus próprios conflitos em casa; e a caçula recém-nascida precisa de doações de leite materno o tempo todo, uma vez que não aceita a fórmula infantil.
Enquanto lida com tudo isso, Latif é colocado no lastro do Pastor Hwan (John Cho), líder de um novo movimento cristão militante que está perseguindo o jovem muçulmano Hatty (Abubakr Ali), acusado – um tanto duvidosamente – de tráfico sexual. Para efeitos de comparação: o roteiro de Your Mother Your Mother Your Mother, também assinado pelo diretor Tariq, emoldura a sua jornada em parte como um daqueles filmes sobre “uma noite infernal”, que nos últimos tempos (vide Dois Dias, Uma Noite ou A Noite Sempre Chega) parece ter se transformado em via para expor/explorar as agruras da pobreza.
Se fosse só isso, no entanto, o filme seria uma repetição difícil de engolir. O trunfo de Tariq é que ele não está interessado em apontar e se horrorizar com as dificuldades logísticas de uma existência de classe trabalhadora – ao invés disso, ele quer examinar os desajustes psicológicos que precedem e sucedem essas dificuldades, e como seus personagens tentam encontrar um lugar confortável e digno no mundo apesar desses desajustes. Latif está numa jornada para entender como o seu senso de justiça, dentro da “profissão” que escolheu para si e da comunidade à qual pertence, se encaixa com a responsabilidade muito mais terrena desses três humanos dos quais precisa (dos quais quer) cuidar.
Claro que Your Mother Your Mother Your Mother também é um filme feito com competência inegável. A direção de fotografia de Katelin Arizmendi (Swallow) empresta uma geometria indispensável para a mistura de contemplação e catarse deste drama de ação, por exemplo. No elenco, Mahershala Ali entrega uma performance cuja maior qualidade é transparecer o cansaço e a persistência de Latif a cada reviravolta, John Cho explora os extremos de um vilão deliciosamente teatral, e a novata Adia faz da jovem Fatiha o coração questionador de um filme que não seria nada sem seus questionamentos.
Você vai se lembrar das cenas de ação de Your Mother Your Mother Your Mother. Porque elas são belas e brutais, sim, mas principalmente porque elas te fazem sentir alguma coisa. Parece pouco, mas não é algo que pode ser dito com tanta frequência ultimamente.
*Your Mother Your Mother Your Mother foi exibido no Festival do Rio 2026. Ainda não há previsão para o lançamento do filme nos circuito comercial brasileiro.
Your Mother Your Mother Your Mother
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