Filmes

Crítica

Woody Allen: Um Documentário | Crítica

Filme tipo "Esta É a Sua Vida" faz do cineasta um ícone do autorismo, para seu desgosto

Marcelo Hessel
02.07.2015
11h51
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

"Nunca acredite nos elogios que recebe", diz Woody Allen durante a sessão de gala de Meia-Noite em Paris em Cannes, um dos momentos cíclicos de consagração que o diretor atravessou em quase 50 anos de carreira no cinema e que são listados no filme Woody Allen: Um Documentário na burocrática forma de um "Esta É a Sua Vida".

woody allen

None

woody allen

None

Escrito e dirigido por Robert Weide (Curb Your Enthusiasm) para a série American Masters do canal PBS dos EUA, o filme - como seu ambicioso título já adianta - pretende repassar a vida de Allan Stewart Konigsberg de forma definitiva. Acompanha-o nas filmagens de Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, em premières, e entrevista admiradores, críticos e colaboradores vários. Todos eles colocam Allen lá em cima - é o que se espera do protocolo de uma produção de TV - mas Weide parece não prestar atenção quando seu biografado pede que se desconfie dos elogios.

Não por acaso, o melhor de Woody Allen: Um Documentário está no começo do filme, que resgata a infância de Allen e vai atrás, ainda que de passagem, das circunstâncias que o transformaram num dos ícones da tradicionalmente autodepreciativa comédia judaica dos EUA. O melhor depoimento do filme é o da mãe de Allen, que luta com as palavras para não falar mal do filho, mas deixa transparecer que sua rigidez foi um fator formador do tipo de humor de Allen (décadas depois ele a homenagearia transformando a mãe em um Godzilla ultraprotetor em Contos de Nova York).

Pela forma como os filmes de Allen se transferem aos poucos de uma perspectiva masculina até os anos 1970 para a feminina a partir dos 1980 (e com musas sazonais, todas entrevistadas no filme, com a exceção óbvia de Mia Farrow, afinal Weide não está interessado em lavar a roupa suja de ninguém), não é difícil perceber que o bom e velho complexo de Édipo atravessa toda a obra do cineasta, mas a mãe do biografado fica só lá no começo, para depois Woody Allen: Um Documentário passar o resto do tempo catalogando os altos e baixos da carreira dele.

Essa escolha é problemática não só porque a produção de Allen é extensa demais para ser aprofundada num único longa-metragem. É problemática, também, porque acaba validando a opinião canônica, a unanimidade, que hoje se faz dos seus filmes. Match Point é, por exemplo, indiscutivelmente um ponto de virada em sua carreira, e o documentário o trata como tal, mas por que não se interessar também pelos filmes supostamente menores de Allen, se a intenção é fazer uma historiografia?

O que acaba acontecendo é que o filme engessa Woody Allen como "autor", como ícone - justamente o que ele renega. A certa altura, um produtor pergunta por que Allen não decide lançar um filme a cada dois anos, uma estreia bienal que seja um esperado evento, ao invés de produzir um longa por ano a toque de caixa, como ele sempre faz. O cineasta responde que essa sugestão não faz o menor sentido.

Woody Allen, afinal, é como Leonard Zelig, o personagem do documentário falso Zelig, sobre um judeu camaleônico complexado, um dos seus melhores filmes. Allan Stewart Konigsberg adotou para sempre os óculos de armação preta porque queria ficar parecido com um ícone de juventude, e escolheu se chamar Woody Allen artisticamente porque não queria que os colegas de escola soubessem que ele era um astro. Woody Allen tem medo da morte mas no fundo quer "desaparecer" em seus filmes. Se alguns dos seus trabalhos são imitações de Fellini ou de Bergman, é porque imitar significa desaparecer.

É por isso que Woody Allen: Um Documentário, com toda a sua bajulação e seus pedestais, não faz justiça à essência de Woody Allen.

Woody Allen: A Documentary | Trailer

Nota do Crítico
Regular