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Crítica

Wildlife

Estreia de Paul Dano como diretor tem atuação poderosa de Carey Mulligan em filme sobre o amadurecimento de pais e filhos

Natália Bridi
07.09.2018
11h52

Há um momento - seja na infância, na adolescência ou na vida adulta - em que se descobre que pais são apenas humanos. Não criaturas mágicas com todas as respostas, mas seres cheios de falhas, dúvidas e sem qualquer controle sobre o que acontece no mundo. Wildlife, filme que marca a estreia de Paul Dano como diretor, é um retrato dessa descoberta.

Wildlife
Wildlife/IFC Films/Divulgação

Com a câmera quase sempre estática, Dano observa as mudanças na vida de Joe (Ed Oxenbould), um adolescente de 14 anos que acaba de se mudar para uma nova cidade. Na primeira cena, Joe e o pai jogam beisebol na frente de casa e logo depois entram para jantar. Tudo parece perfeito aos olhos do garoto, que ignora pequenas faíscas entre seus pais, Jerry (Jake Gyllenhaal) e Jeanette (Carey Mulligan). Aos poucos, essa perfeição se desfaz.

Para tanto, não são necessários longos diálogos. O roteiro de Dano e Zoe Kazan, baseado no livro de Richard Ford, se concentra na incerteza do observador. Joe não está na cabeça dos seus pais para entender suas frustrações, mas é testemunha dos seus atos. Não entende o que os motiva, mas precisa lidar com as consequências das suas decisões. Nessa dinâmica, o desenvolvimento de personagem foge do convencional. Joe é dono do ponto de vista, mas a verdadeira protagonista é sua mãe. Mulligan dá a Jeanette camadas em pequenos detalhes. Pela entonação da sua voz e a confusão no seu olhar, surge o desconforto com a vida, com o marido, com suas escolhas. Ela vai se transformando aos olhos de Joe, deixando de ser um alicerce para se tornar apenas humana.

Essa mudança é lenta. Dano reflete no ritmo da trama, marcado pelo tempo de cada cena, que seus personagens não sabem o que está acontecendo. Assim, não existe uma evolução linear, mas um caminho incerto e trôpego. Enquanto isso, Joe mantém um otimismo “conformado”, que não confronta diretamente a realidade e espera pelo melhor (que nem sempre é o que se idealizava). É como o incêndio atrás das montanhas que ameaça a cidadezinha. Enquanto homens arriscam a vida para apagar o fogo, a vida continua como se nada estivesse acontecendo, esperando pela neve que apagará as labaredas - melancolia captada com precisão pela fotografia de Diego García.

Em Wildlife, Dano transforma o olhar sobre as histórias de amadurecimento em uma narrativa sensível e não convencional. Às vezes, são os pais que precisam “crescer”, não os filhos.

Nota do Crítico
Ótimo