White Boy Rick

Créditos da imagem: Divulgação

Filmes

Crítica

White Boy Rick

A ilusão americana

Natália Bridi
26.11.2018
09h07
Atualizada em
26.11.2018
09h33
Atualizada em 26.11.2018 às 09h33

Descrever Richard Wershe Jr. como precoce é simplificar uma vida complicada. Aos 14 anos, ele era o mais jovem informante do FBI. Aos 15, depois de levar um tiro e descobrir que era pai, começou a vender cocaína. Aos 18 anos, foi condenado a passar o resto da vida na prisão.

White Boy Rick narra as ilusões criadas em uma cidade em decadência, a Detroit da década de 1980, e as decisões erradas cheias de boas intenções tomadas por pessoas cujo principal desejo é uma vida melhor. Wershe Jr. (Richie Merritt) era filho de Richard Wershe Sr. (Matthew McConaughey), um vendedor de armas que entre uma ilegalidade e outra levou sua família para  um caminho sem volta.

Dirigido pelo francês Yann Demange, com base no roteiro de Andy Weiss, Logan Miller e Noah Miller, o filme empresta um olhar estrangeiro a uma história americana, deixando a biografia em segundo plano para extrair uma narrativa sobre o estigma do fracasso nos EUA. A primeira cena, ao som de “Cocaine Blues” na voz de Johnny Cash, estabelece o tom: uma criança corre pelos corredores de uma feira de armas até que a câmera encontra pai e filho usando toda a sua lábia para dobrar um vendedor. Na cena seguinte, os dois conversam no carro voltando para Detroit e McConaughey se abre para uma atuação que se vale do seu carisma e da sua sensibilidade para incorporar o sonho americano e todo o constrangimento da sua não realização. Em um diálogo despretensioso, um pai fracassado explica para o filho que ainda não desistiu de sonhar.

Rick não compra essa dose de esperança e esse contraste é necessário para que se entenda o que o direciona sua virada de jovem pobre para gângster. Demange olha para a cultura das gangues com fascínio, o que é traduzido como um encantamento contínuo na atuação de Merritt. Rick vê tudo como o garoto que é, ciente dos perigos e das consequências, mas claramente seduzido pela possibilidade de ter, não importa como, o que o seu pai não tem: sucesso.

O FBI entra para desfazer essa fantasia juvenil. Longe de representar a lei e a ordem, contudo, os policiais interpretados por Jennifer Jason Leigh, Brian Tyree Henry e Rory Cochrane, estão lá para assinalar a insignificância de Rick, seu pai e qualquer um que acabe no fogo cruzado da lógica burocrática de combate ao crime. Não há espaço para o lado humano, para os pormenores dos erros. Quando deixa de ser útil, o garoto passa a ser um empecilho para o governo, que não está preocupado com a sua idade ou com a sua recuperação em sociedade. Rick passa a ser estatística, uma que só tem validade quando está atrás das grades.

São os sonhos por sucesso que desencadeiam as ações em White Boy Rick, o que é traduzido pela fotografia de Tat Radcliffe - fidedigna na sua representação da época, mas acompanhada por uma gradação onírica em todas as imagens. Talvez pelo mesmo motivo o ritmo do filme seja irregular, usando mais sentimentos e sensações do que causa e efeito para construir o seu ponto de vista. 

Essa é a cinebiografia da complicada vida de Richard Wershe Jr., mas Yann Demange decide tratá-la como uma alegoria cultural, valendo-se de atuações contundentes para dar consistência à narrativa. É somente no último momento que o diretor traz o longa para a “realidade”, terminado em uma nota que é, ao mesmo tempo, dolorosa e enérgica. Fica difícil sair do cinema sem levar um pouco da história de Rick.

Nota do Crítico
Bom