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Crítica

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos | Crítica

Adaptação do game da Blizzard é uma das melhores já feitas - mas uma das mais herméticas

Érico Borgo
01.06.2016, às 00H00
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H48
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H48

A "Alta Fantasia", subgênero mais épico e imaginativo dentro da Fantasia, de luminares como O Senhor dos Anéis, não tem muitos representantes modernos tão populares quanto Warcraft. A poderosa franquia da desenvolvedora Blizzard, criada nos games e ampliada em livros e quadrinhos, é extensa em um nível digno de Tolkien. São mais de 20 anos desde o primeiro jogo - Orcs vs Humans -, que renderam um detalhamento enciclopédico e colaborativo de cada era, locação, mito, religião e personagem no período.

Não se trata, portanto, do típico "filme de game" que estamos acostumados, esse execrado tipo de produção cinematográfica criado para fazer uns trocados inventando uma história onde até então só existia a jogabilidade. Warcraft é um universo riquíssimo e digno de uma superprodução do tipo que muda o panorama da indústria.

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos, dirigido pelo gamer convicto Duncan Jones (Lunar), é o fruto dessa certeza, a de que os games podem render bom cinema. Pelo menos se criados por alguém que entende a propriedade - e nisso Jones é mestre.

Em um nível, o do gamer, Warcraft é um trunfo. Diferente do convencional narrativo, o dos lados antagônicos - o bem é belo, o mal é feio -, o longa respeita a essência de seu universo. Nele, os jogadores optam por se juntar ao lado da Horda ou Aliança. Não há bem ou mal. Há heróis e vilões em ambas as facções. Dessa maneira, Warcraft divide sua trama entre orcs e humanos irmanamente. É um Cartas de Iwo Jima/A Conquista da Honra de fantasia, de certa maneira.

Do lado orc temos Durotan (Toby Kebbell), um chefe de clã constituindo família contra a opressão de um mago opressor. Do lado humano, o general Lothar (Travis Fimmel) enfrentando uma invasão. Ambos defendem seu povo - e o filme tenta equilibrar razões, para manter jogadores satisfeitos. A trama acompanha eventos do primeiro jogo, de 1994, mostrando como começou a animosidade entre as duas raças e a Primeira Guerra que travaram.

Alguns fãs devem torcer o nariz para certas adaptações na história, que não segue à risca o cânone, mas faz algumas boas concessões narrativas pra simplificar a trama (o entrega em essência, o que era esperado). Mas a grande maioria deve mesmo sentir-se em casa. Jones, afinal, foi ao cúmulo de replicar o horizonte retalhado do game (ao longe você vê vários tipos de terreno), para adaptar a sensação de trilhar o mundo de Azeroth que se tem no jogo. Além disso, encomendou da Industrial Light and Magic toda uma nova tecnologia de captura de performance, visando dar aos orcs a mesma empatia que um ator daria aos seus personagens humanos. Até os poros dos modelos em computação gráfica dos orcs são capturados da pele de seus intérpretes. Nesse ponto, Warcraft é bastante impressionante.

A grande questão é a que tange os não-jogadores. Diferente de outras franquias, como a Marvel, que amplia seu universo ao incluir famílias inteiras como público-alvo, Warcraft é hermético demais. O filme começa em combate e parte instantaneamente para os problemas: a diáspora orc saindo de Draenor e a invasão a Azeroth. A apresentação corre apressada e, com ela, perde-se a chance de estabelecimento desses mundos e personagens. Simplesmente não há ligação emocional. Sem ela, perde-se a urgência. Se a sua mãe entende hoje o que é um Reator de Arco tranquilamente, não acredite que ela abraçará o conceito do Fel tão cedo. Pelo menos não como o filme o introduz. Não há uma escala crescente de informação em Warcraft, cuja trama salta de cenário em cenário apresentando personagens para um público que sequer absorveu a novidade anterior ainda. E considere aí que a própria tecnologia, o visual colorido e limpo - em contraponto ao sujo e gasto de O Senhor dos Anéis - e os orcs enquanto heróis e vítimas também são novidades aos olhos dos forasteiros aos jogos.

Os jogadores e fãs, claro, representadíssimos e valorizados, não devem ter problemas em abraçar o filme. Mas para que o universo de Warcraft floresça fora dos games, é necessário pensar nessa abrangência. Ao menos, passado o atropelado primeiro ato, as coisas vão se encaixando e levando em direção a um clímax interessante. Os fãs devem ir ao delírio.  Mas o público normal... esse não deve voltar a Azeroth tão cedo.

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos
Warcraft
Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos
Warcraft

Ano: 2016

País: EUA

Classificação: LIVRE

Duração: 123 min

Direção: Duncan Jones

Roteiro: Duncan Jones, Charles Leavitt, Chris Metzen

Elenco: Travis Fimmel , Paula Patton, Toby Kebbell, Robert Kazinsky, Dominic Cooper, Ben Foster, Ruth Negga, Clancy Brown, Daniel Cudmore, Ben Schnetzer, Callum Keith Rennie, Terry Notary, Ryan Robbins, Daniel Wu

Nota do Crítico
Bom

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