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Crítica

Waking life | Crítica

Sonho gravado em película

Marcelo Hessel
02.05.2002
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h12
Atualizada em 21.09.2014 às 13h12

De repente, surge o diretor Steven Soderbergh, pintado como um desenho animado. Por cerca de dois minutos, o tempo da sua participação em Waking Life de Richard Linklater (2001), Soderbergh relata um diálogo fictício entre os cineastas Louis Malle (1932-1995) e Billy Wilder (1906-2002), travado na época do lançamento de um filme de Malle. "Gastei US$ 2.500.000,00 nesse filme, o maior entre todos os meus orçamentos, sobre um sonho que acontece dentro de outro", diz o francês. Wilder responde: "Pois você jogou no lixo US$ 2.500.000,00".

Não apenas a graça e o inusitado marcam essa passagem de Waking Life. Através dela, fica possível imaginar o tamanho do furacão de idéias que envolve o trabalho de Linklater, diretor de filmes pouco conhecidos, em sua primeira produção totalmente experimental. O trecho ilustrado pela presença de Soderbergh soma-se a dezenas de outras apresentações curtas, com personagens diferentes, quase sempre acerca de temas existenciais, muitas vezes permeados por humor. E esses aspectos dizem respeito à trama, ao conteúdo. Em sua forma, por outro lado, a produção causa muito mais impacto. Não se trata de um filme de verdade, mas de cenas, paisagens e atores reais, que foram pintados, redesenhados e trabalhados num computador, como se faz com um desenho animado.

A fórmula funciona assim: o diretor roda o filme inteiro, edita e monta da maneira normal, praticamente finaliza a obra; daí, entra em ação um software, desenvolvido pelo animador Bob Sabiston, que pinta cada fotograma, inclui novas cores, formas e desenhos em cada pedacinho da película. O resultado? Enquanto uma caricatura de Soderbergh discursa, o céu ao fundo muda de cor e a terra se movimenta. A própria personagem transforma-se, os seus contornos tornam-se inconstantes. Em alguns momentos, a tela assemelha-se a um quadro impressionista. Em segundos, parece-se com um painel de Andy Warhol. Logo em seguida, surge um inesperado Surrealismo. E durante cem minutos, o filme segue essa trilha insana de forma e conteúdo desconjuntados.

Sonho consciente

Logicamente, esses recursos têm uma finalidade. Tal como Malle, Linklater procurava, no início, filmar um sonho. Procurava exibí-lo, visto do lado de dentro, sem a famosa "imagem embaçada" que costuma servir a esse propósito na maioria dos filmes. Para tanto, busca no tratamento das animações a sua resposta. Assim, o enredo de Waking Life retrata os momentos de sono de um jovem (Wiley Wiggins). Em seu caminho, encontra as tais personagens, desde filósofos e suicidas a bêbados e revoltados. Até o momento em que percebe participar de um sonho conscientemente. A grosso modo, "waking life" significa, em Português, "vida consciente". Tudo se mistura para o rapaz, que não sabe mais distinguir a ilusão da realidade... e não consegue despertar.

Muitas pessoas que assistem a Waking Life deixam a sessão com a idéia de terem visto um filme chato, com diálogos pesados, papo-cabeça demais. Antes dos pré-julgamentos, porém, é preciso analisar a proposta da película. No nosso sono, muita informação se perde, pouca coisa se aproveita. E, em nosso sono, entre diálogos surreais, surgem personagens bizarras e as paisagens se desfazem. Ora, em tal contexto, nada mais justo do que coroar Linklater e Sabiston, no mínimo. De uma forma inovadora, tanto na embalagem quanto na trama, o diretor consegue mesmo, filmar um sonho. E, para o desgosto de Billy Wilder, merece todos os créditos pela façanha, digna de antologia.

Waking Life
Waking Life
Waking Life
Waking Life

Ano: 2001

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 99 min

Direção: Richard Linklater

Elenco: Wiley Wiggins, Ethan Hawke, Julie Delpy, Ken Webster, Adam Goldberg, Steven Soderbergh, Bill Wise, Charles Gunning, Caveh Zahedi

Nota do Crítico
Ótimo

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