Você Só Precisa Matar abraça repetitividade da história com animação vibrante
Adaptação de All You Need is Kill,, porém, não vai além do básico na história
Créditos da imagem: Paris Filmes
É até impressionante que Você Só Precisa Matar tenha demorado tanto para ser concebido. O filme adapta a light novel japonesa All You Need is Kill, lançada em 2004 pelo autor Hiroshi Sakurazaka e o ilustrador Yoshitoshi Abe, até virou um live-action hollywoodiano estrelado por Tom Cruise em 2014 (o excelente No Limite do Amanhã) antes de ser adaptado para o longa-metragem animado que essa história parecia destinada a virar.
Essa é uma impressão que é potencializada imediatamente pelo novo filme. Dirigido por Ken'ichirô Akimoto e produzido pelo Studio 4ºC, Você Só Precisa Matar é um banquete visual de cores, designs inspirados e sequências de ação que equilibram bem o humor e a intensidade dos combates de dois guerreiros humanos contra o Darol, uma gigante planta extraterrestre que, no aniversário de um ano de sua queda em nosso planeta, passa a expelir alienígenas ágeis, gigantes e letais. Ao longo de pouco menos de 90 minutos, passeamos por uma estrutura estilo videogame para acompanhar a história de dois heróis improváveis.
Dessa vez assumindo Rita como protagonista (o personagem principal do livro é Keiji, que aqui vira o braço-direito da heroína), Você Só Precisa Matar começa de verdade quando ela, quase acidentalmente, mata um desses alienígenas e, ao ser banhada por seu sangue, passa a reviver aquele fatídico dia toda vez que morre. Keiji também se encontra preso no loop, e o centro dramático da narrativa é na progressão dos dois para aprenderem como lutar e vencer esses perigosos adversários. A comparação com games não é apenas na forma, mas sim no conteúdo. Ambos Rita e Keiji equivalem sua situação inusitada ao contraste de repetição e progressão de algo como um roguelike. A cada morte, você volta para o começo, mas retém o conhecimento.
O filme enfatiza justamente essa progressão, e com a qualidade da animação – que sofre apenas quando alguns ângulos de câmera deixam os modelos 3D dos personagens muito estranhos – é fácil entender essa decisão. Ver Rita dominando a arte de correr com uma armadura pesada, ou Keiji aprendendo a empunhar um machado afiado, permite que Akimoto e seu time desenhem cena após cena de luta, aventura e perseguição com um traço pulsante que deixa tudo e todos em constante movimento. Assim, essas pequenas conquistas viram desafios enormes, superados apenas pela fórmula básica da história: Viva, morra, repita.
A outra boa justificativa para esse foco nos combates, que culminam com uma batalha inesperada no mais grandioso cenário, é que Você Só Precisa Matar não parece saber, ou até mesmo querer, explorar algum desenvolvimento emocional. Seja como figuras individuais, na amizade improvável ou como representantes da raça humana na luta contra a extinção, Rita e Keiji são concebidos em linhas grossas, e nunca vão além de papéis a serem cumpridos dentro do roteiro. A exceção a isso vem quando, logo antes do clímax, o roteiro de Yūichirō Kido desova dois monólogos expositivos para que cada protagonista tenha a chance de falar sobre sua vida.
É um movimento que surge quase como se o filme sentisse que precisava enfim abordar o passado trágico de ambos, assim aumentando o peso emocional de sua conclusão. A verdade é que o momento apenas sublinha as limitações narrativas de Você Só Precisa Matar, que logo após essa breve pausa volta a fazer o que faz de melhor: colocar seus personagens no meio de uma guerra desenhada e colorida de maneira vibrante.