Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Créditos da imagem: Amazon Studios/Reprodução

Filmes

Crítica

Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Joaquin Phoenix tira o novo trabalho de Lynne Ramsay do lugar-comum dos filmes de vingança fetichistas

Marcelo Hessel
08.08.2018
13h10
Atualizada em
09.08.2018
12h56
Atualizada em 09.08.2018 às 12h56

Desembarcada no cinema de prestígio depois de Precisamos Falar sobre o Kevin, a diretora e roteirista escocesa Lynne Ramsay não se faz de desentendida e realiza com Você Nunca Esteve Realmente Aqui o tipo de suspense de impacto que se espera dela. O resultado, validado em festivais, é uma releitura de Taxi Driver que busca se filiar aos grandes filmes de ator americanos, como o próprio clássico de Martin Scorsese.

Assim como o Travis Bickle de Robert De Niro, o matador Joe, interpretado com pesar por Joaquin Phoenix em VNERA, é um veterano de guerra que atravessa um transtorno pós-traumático em forma de misantropia. Joe também vive atrás do volante de carros, de viagem em viagem, de serviço em serviço, aparentemente priorizando casos de abusos de menores, cujos perpretadores Joe castiga com martelos escolhidos detidamente. Como em Taxi Driver (embora sem narrações em off que explicitem essa leitura), Joe vê nas meninas abusadas a pureza perdida dos anjos, e restituir a inocência do mundo é o fardo do seu ofício.

A exposição enxuta minimiza as oportunidades de mergulhar textualmente nos traumas e nas relativizações de Joe. Assim, o matador nos parece mais um tipo que engole conflitos e os devolve ao mundo de jeitos débeis, apática e infantilmente (na cena das jujubas, na brincadeira de Psicose com a mãe, na cantoria no chão da cozinha). Phoenix aproveita como pode o vácuo de texto e cria a partir desses traços um tipo que, mesmo fisicamente, nos transmite uma contradição em termos: Joe é forte como os militares, barrigudo como os aposentados, é um homem adulto "pleno", por assim dizer, mas se curva e se fecha em si como uma criança desamparada, falando baixo, gesticulando sem expansividade.

Phoenix é um ator conhecido por sua capacidade de transmitir vulnerabilidade, e em VNERA isso vem acompanhado de uma maldade insondável no olhar. É o que torna este papel tão atraente na sua filmografia. É curiosa, por exemplo, a cena em que Phoenix devolve com olhar distante, julgador, a fala de um senador que o contrata pedindo que Joe "machuque" os homens que raptaram sua filha. Joe o julga com um começo de sorriso cínico, porque no fundo o martelo - e o cuidado no preparo do serviço, na limpeza da cena do crime, os planos-detalhes todos de sangue, mãos e objetos que Ramsay enfileira para denotar como Joe é metódico de um jeito custoso e não elegante - já implica um fetiche da violência.

A diretora abraça o fetiche e seu filme acaba deixando-se marcar por isso. Nesse sentido, talvez esteja no meio do caminho entre o niilismo de Taxi Driver e o impulso sádico estetizante de um Park Chan-wook, autor sul-coreano que não por acaso também foi alçado ao clube dos festivais de cinema pela via do desconforto, com seu Oldboy. Transitando entre esses dois pólos do suspense e das tentações do gore, e conformando-se em discursos de descontentamento (com a política, com o mundo), Lynne Ramsay faz um thriller que meio que já nasce velho, ou pelo menos delimitado, e não só pela trilha de sintetizadores que emula os anos 1970 e 80, grande fase dos filmes urbanos de vingança.

O que permanece em Você Nunca Esteve Realmente Aqui, que lhe dá um alicerce e transcende as primeiras impressões, é a figura de Joaquin Phoenix, ator no auge da sua expressão.

Nota do Crítico
Bom