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Crítica

Vingadores: Guerra Infinita | Crítica

Era dos heróis no cinema chega ao ápice com nova aventura da Marvel

Thiago Romariz
25.04.2018
16h28
Atualizada em
29.06.2018
08h34
Atualizada em 29.06.2018 às 08h34

A Marvel construiu um universo no cinema calcada na capacidade de adaptar e modificar seus personagens criados nos quadrinhos. A noção de que a mitologia inventada por Stan Lee, Jack Kirby e tantos outros teria que ser alterada, sem perder a essência, talvez tenha sido o ingrediente mágico na receita que hoje norteia Hollywood. Dez anos depois do pontapé inicial, o estúdio entregou nas mãos dos Irmão Russo a missão de encerrar o primeiro arco dos Vingadores. Guerra Infinita cumpre essa tarefa com êxito e se mantém fiel às características que fizeram a Marvel ser tão aclamada nos últimos anos.

Mais do que um filme de aventura ou ação, como a maioria de seus antecessores, essa empreitada dos heróis tem um senso de urgência muito maior. É um evento. Ou seja, os riscos são evidentes e impactantes. Tudo tem consequência. Para que isso fosse sentido pelo público, os roteiristas Stephen McFeely e Christopher Markus optaram por tornar o vilão Thanos o centro da história. Vingadores: Guerra Infinita é um filme carregado pelo inesperado carisma do antagonista, que tem motivações contextualizadas, críveis e se encaixa perfeitamente no universo apresentado - ele é cruel, misericordioso, tem senso de humor e é amável. Tudo isso se deve também a boa atuação de Josh Brolin como o titã, perfeitamente construído pela empresa de efeitos visuais ILM.

Essa persona de Thanos é construída a partir da busca pelas Joias do Infinito, as pedras que ilustram o título do filme. Nessa incessante procura, ele apresenta facetas e relações que o deixam mais próximo ao espectador, criando empatia a partir das atitudes que tem com coadjuvantes como Gamora. A relação dele com as filhas é o que norteia a trama de Guerra Infinita, e talvez seja o maior acerto da Marvel, que pela segunda vez acerta em cheio na construção emocional de um vilão - a primeira foi com Killmonger, de Pantera Negra. Os sentimentos e a humanização do personagem são apresentados sem pieguice e com diálogos simples, sempre visando o objetivo final da aventura e com a consciência de que o filme é um blockbuster sem pretensões filosóficas.

Com um inimigo estabelecido, resta aos diretores o desafio de conciliar tantos heróis na mesma história. E a competência mostrada em Guerra Civil é repetida aqui, em uma escala bem maior. Enquanto no último filme do Capitão os irmãos patinaram para entender como reverberar os problemas do dilema central (a briga entre Steve Rogers e Tony Stark), aqui todos os envolvidos são impactados de alguma forma. O núcleo dos Guardiões funciona perfeitamente com Thor, tanto na parte cômica quanto na dramática. A transformação do Deus do Trovão é notória, que finalmente encontra um caminho entre a comédia e eloquência celestial, continuando o que foi introduzido em Ragnarok

O impacto terrestre é sentido pelo grupo liderado por Homem de Ferro, Homem-Aranha e Doutor Estranho, por mais que eles estejam em diversos lugares ao mesmo tempo. Robert Downey Jr. repete a ótima química com Tom Holland e mostra que pode funcionar bem com Benedict Cumberbatch. O trio também serve como lembrete da Batalha de Nova York e dos poderes das Joias, explicando o impacto que o poder de Thanos terá sobre o universo - além disso tudo, protagonizam uma das melhores cenas de ação da história da Marvel. É a comprovação de que os Russo evoluíram muito na hora de dirigir momentos abarrotados de efeitos especiais. A sequência utiliza os poderes de cada herói e no final entrega a emoção necessária para um evento do tamanho de Guerra Infinita.

O ritmo e a construção da narrativa só não são acompanhadas por Capitão América e Cia. Ainda que as cenas de ação em Wakanda sejam muito melhores do que as de Pantera Negra e a relação entre Feiticeira e Visão funcione, o roteiro tira todo o peso de Steve Rogers, Bruce Banner e T'Challa. Eles brilham em momentos de ação, mas pouco influenciam na história e por isso parecem sempre de lado, menos importantes perante ao que os outros heróis estão sofrendo. Como o cerne de Rogers no cinema era o conflito Stark, pouco sobra para questionar - o lado guerreiro de todos os seus companheiros é mais explorado do que o dramático. No fim das contas, o mais humano dos heróis se torna o menos interessante.

É admirável a capacidade de Guerra Infinita de tornar o vilão o melhor traço de um filme que tinha tudo para ser o palco principal dos heróis. Thanos rouba a cena de forma inesperada, com personalidade e sem a loucura desvairada de vilões típicos. Há propósito, há justificativa e há alma em todas as palavras ditas pelo gigante roxo, que também proporciona aos heróis as cenas de ação que ficarão na memória do público por muito tempo. A Marvel entrega tudo que os fãs queriam, mostra evolução no tratamento de seus personagens e se mantém fiel à receita de entretenimento que a fez ser o ícone do cinema contemporâneo. Vingadores: Guerra Infinita é o evento prometido do início ao fim, e o começo de uma nova era no gênero de super-heróis.

Vingadores: Guerra Infinita
Avengers: Infinity War

Ano: 2018

Classificação: 12 anos

Duração: 150 min

Direção: Anthony Russo, Joe Russo

Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Josh Brolin, Chris Evans, Tessa Thompson, Scarlett Johansson, Karen Gillan, Tom Hiddleston, Elizabeth Olsen, Tom Holland, Benedict Cumberbatch, Mark Ruffalo, Zoe Saldana, Jeremy Renner, Sebastian Stan, Cobie Smulders, Dave Bautista, Jon Favreau, Chadwick Boseman, Danai Gurira, Paul Bettany, Anthony Mackie, Don Cheadle

Nota do Crítico
Ótimo