Filmes

Crítica

Vício Inerente | Crítica

As portas da percepção

Marcelo Hessel
26.03.2015
13h15
Atualizada em
29.06.2018
02h47
Atualizada em 29.06.2018 às 02h47

Perder-se no sonho americano e depois se reencontrar, transformado, é o arco pelo qual passa a maioria dos heróis trágicos de Paul Thomas Anderson, seja no Velho Oeste no fim dos anos 1800 ou na era noventista dos gurus de autoajuda. Na história dos EUA, nenhum período ofereceu tanto oportunidade para a desilusão com o american way quanto os anos 1970, e é para lá que PTA volta em Vício Inerente (Inherent Vice, 2014).

A adaptação ao cinema do romance de 2009 de Thomas Pynchon - a primeira autorizada pelo recluso escritor de 77 anos - segue Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix), detetive convencido por uma ex-namorada (Katherine Waterston) a investigar uma suposta trama para assassinar um empresário (Eric Roberts) do ramo imobiliário em Los Angeles. Como em qualquer noir, a intriga amorosa é só um ponto de partida, e Doc mal suspeita que o caso o colocará no caminho de todo o espectro sociopolítico americano da época, dos black panthers aos neonazistas.

O desencontro é parte da proposta; na obra de Pynchon, o fim das utopias deixou vestígios que se chocam e se anulam, seja na forma de engajamentos opostos, idealistas versus pragmáticos, ou de grupos rivais específicos, como os agentes da lei versus os representantes da contracultura. (Não por acaso o último encontro, hippies versus a "família americana", é encenada como um duelo.) A confusão mental de Doc Sportello - figura clássica do maconheiro com déficit de atenção - é a tradução em cena desse vale-tudo filosófico dos anos 70.

Quem diz que Vício Inerente é um filme confuso, então, talvez esteja prestando atenção demais a elementos expositivos que foram concebidos justamente para pontuar uma confusão, como as entradas de novos personagens e novas situações a cada virada na investigação. Quem deve se confundir é Doc - e sua redenção vem, claro, do momento em que ele encaixa as peças. Doc literalmente se ilumina, e o sol da Califórnia ressalta os olhos claros de Phoenix ao final. Já o espectador tem, em momentos-chave, as conexões entregues no seu colo, como quando PTA relembra, em fusão, o caso da dentadura de Hope Harlingen na cena em que Doc passa pelos jovens no dentista.

Nessa espiral crescente de informações e reviravoltas, Vício Inerente se assemelha ao outro longa de PTA ambientado nos anos 70, Boogie Nights. Em ambos, o uso de drogas acelera a narrativa e exprime um desarranjo. A diferença é que no filme de 1997 Dirk Diggler, pelos efeitos da cocaína, tem a ilusão do foco, enquanto o maconheiro Doc perde para a paranoia qualquer capacidade de enxergar o "grande plano".

Essa característica, essa letargia, torna Vício Inerente o filme de PTA que mais dá importância ao registro historiográfico. Cineasta conhecido pelos planos-sequências que mantêm meia distância dos personagens e valorizam os entornos, ele nunca dependeu tanto de seu departamento de arte e decoração para contar uma história. Ao lado de Doc Sportello, passeamos por Los Angeles como visitantes de um museu de dioramas, verdadeiras portas da percepção que levam a cômodos que revelam fragmentos de algo maior, com a história dos EUA didaticamente ao alcance das mãos (a cena em que Doc pega na prateleira a foto do ator que acabou de discutir com Sauncho é impagável).

O que torna Vício Inerente especial é a forma como esse passeio acontece com aparente descompromisso para desarmar, com ironia, a autoimportância do sonho americano. A "Santa Ceia" transformada em pizzada é uma das imagens que ficam dessa comédia que, a seu modo distraído, acumula todo tipo de informação para chegar à conclusão definitiva da contracultura: de que a única coisa de que precisamos é o amor.

Vício Inerente | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Ótimo