Apesar de repetitivo, Vicentina Pede Desculpas tem talento e coração
Gabriel Martins faz filme indulgente, mas valoroso
Créditos da imagem: Rejane Faria em Vicentina Pede Desculpas (Reprodução)
Rejane Faria, que interpreta a personagem título de Vicentina Pede Desculpas, é claramente um grande talento. Dona de currículo ilustre no teatro e mais recente, mas igualmente brilhante, no cinema (vide Temporada, Marte Um, Ninguém Sai Vivo Daqui), ela toma os holofotes de forma sem precedentes no novo longa de Gabriel Martins – em muitos sentidos, Faria é o filme, aparecendo em virtualmente (senão literalmente) todas as cenas de suas épicas 2h28 de duração. E ela entrega tudo o que o filme pede dela.
A Vicentina da atriz mineira é uma criação de corpo inteiro, definida de certa forma pela postura e pelo movimento vagaroso – resultado de uma perna ruim –, pela hesitação em iniciar cada frase, pelos hábitos que cercam sua domesticidade. Ainda mais impressionante do que essa construção, no entanto, é como Faria evita que Vicentina se torne uma caricatura da “senhorinha humilde” que é figura pervasiva na nossa ficção e nossa imaginação popular. Atenta a um texto (também assinado por Martins) que dá à personagem uma vida vibrante além de suas limitações físicas, ela atua acertadamente como uma mulher que é subestimada ao nosso próprio risco.
Dito tudo isso, é inegável que Vicentina Pede Desculpas dá uma missão ingrata para sua protagonista. A trama acompanha a personagem no mês que sucede um grave acidente de ônibus – um veículo que o seu filho estava dirigindo, e que cai de uma ponte de maneira misteriosa, deixando aberta a possibilidade de que o rapaz tenha cometido suicídio. Assombrada por uma culpa que nem ela mesma consegue colocar em palavras, Vicentina decide procurar o contato das famílias dos passageiros do ônibus, e pedir desculpas a eles pessoalmente.
Fica claro, lá pelo terceiro ato de Vicentina Pede Desculpas, que essa jornada é mais uma maneira de descobrir mais sobre o ato aparentemente indecifrável de violência que terminou com a vida do seu filho, e assim voltar a compreendê-lo, do que qualquer coisa. Mas até lá Vicentina, e portanto Rejane Faria, precisa repetir talvez meia dúzia de vezes a mesma ladainha diante de um dos familiares, um texto que pouco se modifica e cujo elemento de suspense está na reação daqueles diante da protagonista, e não da entrega emocional dela. Até porque, quando fica claro que Vicentina está repetindo um texto mais ou menos decorado, essa emoção vai se esvaziando.
Essa estrutura repetitiva faz pouco para agraciar o público a Vicentina, a personagem e o filme. Punitivo em sua duração e em seu clima meio sufocante de luto, o filme de Martins se impõe mesmo é pelo talento com o qual é realizado. O diretor de fotografia Leonardo Feliciano (colaborador de Martins em Marte Um) faz um retrato bonito da periferia como a fronteira entre o urbano e o natural, e o excelente elenco coadjuvante vai revelando, diante das desculpas de Vicentina, um leque rico de reações à tragédia – da apatia à raiva, da espiritualidade ao niilismo.
São essas pepitas de verdade que se destacam, em meio a um filme ambicioso e verdadeiro, mas pouco consciente de si mesmo como história. Talvez seja mais do que o bastante para valer seu tempo, mas Vicentina Pede Desculpas – como sua protagonista, talvez – ainda carrega nas costas um peso que não precisava estar ali.
*Vicentina Pede Desculpas foi exibido no Festival do Rio 2026. O longa será exibido em cinemas selecionados pelo país a partir de 5 de novembro, e chega ao catálogo da Netflix em 20 de novembro.
Vicentina Pede Desculpas
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