Vice

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Crítica

Vice

Filme usa a comédia misturada com grandes atuações para contar a história do vice-presidente mais poderoso dos EUA

Fábio de Souza Gomes
31.01.2019
16h33
Atualizada em
31.01.2019
16h43
Atualizada em 31.01.2019 às 16h43

Vice não é um filme de política comum. O longa foca na vida de Dick Cheney (Christian Bale), um dos vice-presidentes americanos mais poderosos de todos os tempos. A ideia da produção é mostrar como as políticas de Cheney mudaram o mundo que conhecemos e, para isso, usa o humor absurdo do diretor Adam McKay para fazer essa história fazer sentido.

Ao mesmo tempo que dirigiu o premiado A Grande Aposta, o cineasta também esteve por trás de comédias como Quase Irmãos e Tudo por Um Furo. Esse filme tem muito mais inspirações nos trabalhos anteriores do cineasta do que no longa que lhe rendeu um Oscar e ele utiliza o humor e diálogos rápidos para deixar um personagem sem nenhum carisma interessante em mais uma performance marcante de Christian Bale.

O ator, como sempre, se transformou para o papel. Além de ganhar peso e fazer exercícios para engrossar o pescoço para ficar ainda mais parecido fisicamente com o ex-vice-presidente dos EUA, Bale se destaca especialmente no timbre de voz que, além de envelhecer com o passar do longa, é monótono e prático como o do retratado. Com ele vemos a transformação de um homem que não sabia o que fazer da vida para um manipulador que conseguiu comandar um país da vice-presidência. E ele chega a esse ponto por conta de dois personagens: Donald Rumsfeld (Steve Carell) e Lyn Cheney (Amy Adams).

Quando se tem um protagonista propositalmente sem carisma é necessário coadjuvantes que façam a história sempre ficar interessante e o filme trabalha muito bem cada um deles. Lyn é apresentada como uma mulher que tem mais sonhos que o marido e é ela quem faz com que ele se torne um político, enquanto Donald é o homem que Dick quer ser. Tanto Adams quanto Carell são mais expansivos e carismáticos, liderando as cenas em que estão envolvidos em grande parte do filme. São eles que “constroem” Dick Cheney e, quando não estão em cena, o diretor usa da edição para deixar o filme mais dinâmico, especialmente na relação com George W. Bush, vivido brilhantemente por Sam Rockwell.

O cineasta deixa metáforas explicitas ao invés de investir apenas no tom monótono de Cheney. No momento em que ele está convencendo Bush a lhe dar mais poderes como vice-presidente, o diretor faz uma analogia à pesca e literalmente mostra o futuro presidente dos EUA sendo fisgado. Essa edição dinâmica ajuda a prender a atenção do público nos momento mais burocráticos da produção, mas mesmo assim alguns espectadores podem ficar confusos com o filme.

O longa fala muito de política americana e, assim como A Grande Aposta, usa termos que grande parte do público deve desconhecer. Ele é muito específico em momentos e uma piscada ou desatenção já basta para perder o contexto da história. Mesmo assim, a maneira como o diretor mostra que Cheney foi uma sombra na política americana por anos é feita de um jeito que pode abrir a mente de muita gente.

Cheney nunca teve os holofotes, mas sempre controlou a Casa Branca de longe. É por conta dele que a energia solar foi atrasada, ele orquestrou a invasão no Iraque após 2001 e fez o que quis dentro dos EUA. O filme mostra como ele manipulou o sistema a seu favor e cresceu ao ponto de se tornar uma das pessoas mais poderosas do mundo. O filme joga uma luz nesse homem e ajuda a compreender como os EUA está na situação atual.

Vice é uma comédia absurda baseada em fatos reais que se apoia em uma edição dinâmica, um roteiro afiado e atuações fortes para contar a história da política americana de uma forma engraçada e, ao mesmo tempo, reflexiva.

Nota do Crítico
Ótimo