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Crítica

Verão em Red Hook | Crítica

Spike Lee escreve certo por linhas tortas

Marcelo Hessel
20.10.2014, às 15H52
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37

Quando Spike Lee interpretou o entregador de pizzas Mookie pela primeira vez, em Faça a Coisa Certa (1989), o Brooklyn novaiorquino era uma terra desarticulada. Negros e descendentes de italianos entraram em guerra, basicamente, por não saber expressar seus pontos de vista. Lee não atuava em seus filmes desde O Verão de Sam (1999), e em Verão em Red Hook (Red Hook Summer) ele volta ao papel do entregador - ele é o "Sr. Mookie" agora - para encontrar uma vizinhança plenamente articulada.

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Como Red Hook fica à margem da baía de Nova York, o calor de mais este verão não parece tão intenso quanto o de Faça a Coisa Certa. Os personagens que moram nos conjuntos habitacionais de Red Hook - o aspirante a rapper, o pastor batista, o bêbado que sabe de tudo, a adolescente que deixa sua marca no cimento fresco - lidam com a falta de perspectiva mas têm seus discursos prontos e em ordem. Achar uma voz sempre foi a defesa mais importante, afinal, desde Malcolm X e Martin Luther King até os Panteras Negras.

O protagonista de Verão em Red Hook, porém, é um adolescente de 13 anos "sem voz", Flik (Jules Brown), que chega de Atlanta para passar as férias com um avô que ele não conhece, o pastor Enoch (Clarke Peters). Suas roupas, seu moicano e seu iPad 2 fazem dele uma vítima das modas e um alienígena no Brooklyn. Nem seu vocabulário de estudante sulista os outros entendem. Ao longo do filme, Enoch levará religiosamente o neto para as missas da sua igreja, na tentativa de aproximá-lo de Deus. Na verdade, o que Red Hook desperta em Flik ao longo do verão - a partir da poderosa retórica do avô, pilar da comunidade - é a consciência do discurso.

Embora o parentesco imediato desta história-de-amadurecimento seja com as outras Crônicas do Brooklyn de Spike Lee - Faça a Coisa Certa é a principal delas - Verão em Red Hook talvez seja mais próximo de A Hora do Show (Bamboozled, 2000) do que de qualquer outro filme do cineasta, no sentido em que ambos tratam dos dilemas mais profundos embutidos na articulação e na representação. Em Bamboozled, acompanhávamos dois artistas negros que, para provocar uma reação do público, criavam um programa de TV com a preconceituosa maquiagem blackface. Já em Verão em Red Hook, uma reviravolta de impacto nos mostrará que o discurso de afirmação - assim como em Bamboozled - pode também ser uma forma de fuga e mesmo de negação.

Essa reviravolta tem provocado nos EUA a maior parte das reações negativas ao filme, que passou por uma remontagem após o Festival de Sundance - tinha 135 minutos e agora ficou com 121. Cortes à parte, essa versão final de Verão em Red Hook é um dos filmes mais complexos de Spike Lee, que usa a teatralidade de diálogos empostados (os conjuntos habitacionais parecem um cenário de sitcom, com personagens entrando pelas margens do enquadramento para se encontrar harmonicamente) para sugerir que há algo de errado nesse mundo hoje tão perfeitamente articulado. É uma estratégia arriscada, em um filme que assume riscos o tempo inteiro, e a recompensa é maior quando se escreve certo por linhas tortas.

Verão em Red Hook
Red Hook Summer
Verão em Red Hook
Red Hook Summer

Ano: 2012

País: EUA

Classificação: LIVRE

Direção: Spike Lee

Roteiro: Spike Lee, James McBride

Elenco: Jules Brown, Clarke Peters, Thomas Jefferson Byrd, Toni Lysaith, Kimberly Hebert Gregory, Nate Parker

Nota do Crítico
Ótimo

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