Velvet Buzzsaw

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Crítica

Velvet Buzzsaw

Diretor de O Abutre volta a trabalhar com Jake Gyllenhaal em terror satírico

Marcelo Hessel
31.01.2019
13h08
Atualizada em
04.07.2019
17h43
Atualizada em 04.07.2019 às 17h43

Embora já tenha uma longa carreira como roteirista, Dan Gilroy se aventura na direção desde 2014, e a seu favor é possível dizer que já encontrou um ator de estimação capaz de manifestar e sintetizar o espírito de suas sátiras. Depois de protagonizar a estreia de Gilroy, O Abutre, Jake Gyllenhaal volta em Velvet Buzzsaw a viver uma caricatura de neuroses contemporâneas, com uma atuação magnética que transita o tempo todo no limite entre a empatia e a aversão que gera no espectador.

Gyllenhaal faz Morf Vandewalt, crítico de arte bissexual que se vê no meio de um mistério sobrenatural, quando um falecido pintor desconhecido se torna uma sensação do mercado das artes de Los Angeles. Enquanto todos correm para lucrar com as sinistras telas do pintor, Morf entra numa espiral de loucura à medida em que se revela que essa ambição traz consigo uma maldição.

Gilroy basicamente usa a estrutura de um terror de slasher ironicamente - com uma pegada que lembra Pânico, mas sem o engenho de metalinguagem - para satirizar a superficialidade do mercado de artes. Seu filme se organiza em subtramas (a dona desumana da galeria, a arrivista, o concorrente, o artista veterano ex-alcoólatra, o pintor revelação que veio do gueto, a estagiária) com um espírito de crônica próximo dos filmes-corais de Robert Altman, e o paralelo se dá mais especificamente com O Jogador, o filme de 1992 de Altman que satiriza o lado industrial de Hollywood.

Velvet Buzzsaw deprecia tanto na comparação com Pânico quanto com O Jogador, porém, porque esses dois filmes souberam bem usar a metalinguagem para subverter gêneros do cinema a favor do discurso satírico. No caso de Gilroy, a mistura que ele sugere de comédia e terror nunca se funde de fato, e ao longo do filme fica a sensação de que estamos mais diante de um exercício pedestre de provocação - Gilroy negociou o projeto com a Netflix e Velvet Buzzsaw tem mesmo cara de obra "menor" do que O Abutre - do que de uma organização mais consistente de visão de mundo.

De resto, talvez esteja mesmo na estética televisiva a grande referência de Gilroy aqui, porque Velvet Buzzsaw já começa como se fosse um piloto de seriado: panorâmica aérea de um espaço de convenções de Miami, fotografia branca lavada, montagem que se preocupa em mostrar igualmente os vários núcleos de personagens, com seu protagonista transitando entre eles. É o mesmo tipo de fotografia que David Cronenberg usou em Mapas para as Estrelas para demarcar plasticamente a futilidade da indústria do cinema de Los Angeles, e nas panorâmicas (especialmente uma em altíssima definição do Centro de LA) Velvet Buzzsaw também lembra a fotografia digital de Twin Peaks S3.

Esse flerte com a televisão, assim como a experimentação com as regras do terror, também termina meio deslocado no filme de Gilroy. De Cronenberg a Altman, de Wes Craven a David Lynch, outros cineastas já trabalharam melhor um cruzamento de gêneros com viés satírico - e por conta dos temas e da imodéstia com que se dispõe a jogar nesse terreno, Velvet Buzzsaw dificilmente escapará dessas comparações.

Nota do Crítico
Bom