Dwayne Johnson e Jason Statham em Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw

Créditos da imagem: Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw/Divulgação

Filmes

Crítica

Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw

Derivado repete e amplifica o que funciona na franquia, mas mais próximo do cinema brucutu à moda antiga

Marcelo Hessel
31.07.2019
20h14

Em 2019 parece impossível atender os clichês das fantasias masculinas no cinema de ação, e ao mesmo tempo atingir todos os públicos, sem escolher conscientemente o caminho da galhofa e do exagero. Uma das razões da longevidade de Velozes & Furiosos é justamente essa percepção, e o derivado Hobbs & Shaw não a nega. Na sua tentativa de se emancipar numa franquia paralela, longe de Vin Diesel e independente da série principal, Dwayne Johnson repete e amplifica o que já funciona.

Primeiro, a escala do filme e a grandiosidade da ação, compreensivelmente, aproximam Hobbs & Shaw de Velozes e Furiosos 8 - inclusive os dois longas têm praticamente a mesma duração, duas horas e tanto de cenas de ação coladas umas nas outras com justificativas mínimas, envolvendo ameaças de destruição global. O inchaço que já se nota na franquia matriz há uns dois ou três filme é o mesmo que acomete Hobbs & Shaw desde este começo: vai depender muito da tolerância do espectador acompanhar com interesse, até o final, a variedade de perseguições e porradaria.

Dentro da metragem dá tempo de fazer uns dois ou três gêneros diferentes: começa com trama de assalto e espionagem, depois abraça a galhofa numa comédia de rivais, estende-se no corre-corre e na destruição, e por fim arrisca um filme de cerco em busca de um final mais dramático. Nessa modulação, o diretor David Leitch se mostra mais bem sucedido quando faz humor, embora não seja a sua especialidade. Os tempos de comédia de Jason Statham e The Rock, treinados e aperfeiçoados ao longo de umas duas décadas de galhofa autoconsciente, encontram aqui um casamento bem afinado.

É o humor, dinamizado em cenas de corte rápido, como quando Hobbs e Shaw trocam ofensas em tom de improviso, que dá a liga no filme inteiro e permite que ele se sustente até o fim. Inclusive as participações especiais que podem pegar o espectador de surpresa (de nomes fortes de Hollywood que parecem prontos para ingressar na franquia daqui em diante) jogam essencialmente em cima da chave cômica. De Leitch, porém, se esperaria que trouxesse a Velozes e Furiosos o estilo ou pelo menos o conhecimento desenvolvido como dublê e depois diretor de ação em filmes como John Wick e Atômica.

E o que chama a atenção nas cenas de luta e ação é que elas transcendem Leitch. O referencial é bem anterior, vai até os anos 80 e 90 na escolha de tipos, no tom exagerado e no subtexto homoerótico. Nesse sentido, Hobbs & Shaw às vezes lembra mais Soldado Universal do que propriamente Velozes e Furiosos, não apenas no clímax (a pegação debaixo da chuva) mas também na premissa e na construção do vilão de Idris Elba (cuja motivação é bem rasa e difusa no filme e só se justifica pela competição de hombridade).

O contexto também transcende Leitch, porque o filme se insere no cinema gamificado que remete a Zack Snyder, Neveldine/Taylor e seus herdeiros. Algo curioso e próprio de Hobbs e Shaw: como seu diálogo primeiro é com o receituário do cinema de ação noventista - com seu star system próprio, desenhado a partir de perfis bem definidos de macho (o carateca, o "tanque", o bronco, o selvagem) - o que vemos é menos uma gamificação da estrutura como um todo (ameaças organizadas como subchefes de fase) e mais uma gamificação desses próprios personagens-tipos, colocados em situações análogas a ambiente de jogo.

O resultado é um filme que leva ao limite a ideia de que seus protagonistas são action figures incansáveis, controlados por uma força exterior, e comprometidos a cenas de ação e luta sem consequência. Quando existe no longa, a gamificação está diretamente relacionada com a forma como os personagens interagem e se comportam. Então há, por exemplo, os heróis que resolvem problemas com combos em dupla, e há o vilão que retorna mais forte e difícil a cada upgrade, com direito a HUD no combate. É esse componente que torna Hobbs & Shaw particular, e ademais deve ser o primeiro filme gamificado cujo desfecho se desenrola como um quick time event, com direito a câmera lenta e golpes cronometrados. Só faltou aparecer os botões na tela.

Nota do Crítico
Bom