Val, filme sobre Val Kilmer, exalta a vida com poesia visual melancólica

Créditos da imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Filmes

Crítica

Val, filme sobre Val Kilmer, exalta a vida com poesia visual melancólica

Documentário devolve voz perdida pelo ator após câncer para propor reflexão sobre perda e cura

Eduardo Pereira
13.08.2021, às 17H11

A carreira de Val Kilmer é um excelente símbolo do tipo particular de estrela difusa que ele mesmo representa em Hollywood. Contemporâneo de atores como Kevin Bacon e Sean Penn, Kilmer orbitou por anos o tão sonhado status de membro do primeiro escalão do cinema americano, ao mesmo tempo em que suas excêntricas ambições pessoais, seu comportamento genioso e seu visual de "boy toy" insistiram em mantê-lo como coadjuvante de luxo. Nem mesmo a transformação hipnótica em Jim Morrison para a cinebiografia The Doors (1991) ou o protagonismo como herói-título em Batman: Eternamente (1995), papel que ele abandonou para a sequência quando se sentiu eclipsado por Jim Carrey e Tommy Lee Jones, foram capazes de lançá-lo de vez à esfera dos "A-Listers".

Essa dicotomia fascinante é só um retalho na enorme colcha de memórias que compõem o documentário biográfico Val, produzido pela A24 e lançado no Amazon Prime Video. O filme, um retrato simultaneamente melancólico e otimista da vida e obra do ator de 61 anos, é uma defesa não só de uma carreira memorável, mas marcada pela irregularidade, como também de um ideal romântico sobre a arte da atuação que teria sido o graal cuja busca guiou essa trajetória. Até mais do que isso, é também uma ferramenta de cura; um tratado de paz do artista com o desalinho entre expectativa e realidade que permeou e manchou sua própria compreensão da arte que produziu.

Não-linear, a narrativa de Val é mais poesia que prosa, rimando na contraposição de imagens de um Kilmer insatisfeito e ansioso em seu auge com cenas dele fragilizado, mas envolto em uma alegria quase juvenil, hoje. Essas cenas situadas no "tempo presente" são as verdadeiras protagonistas do documentário; intimistas e reveladoras, não fazem a menor questão de esconder ou maquiar o efeito devastador das cirurgias e sessões de radioterapia e quimioterapia que salvaram a vida do ator de um câncer na garganta, em 2017. Com um aparelho de traqueostomia instalado em seu pescoço até hoje, a voz que ficou imortalizada em anos de trabalhos no cinema não existe mais. Mediante grande esforço, o próprio Kilmer explica como o aparato o faz ter de escolher entre respirar, comer e falar. É chocante.

O aspecto mais poderoso dessa exploração da fragilidade de um ícone, entretanto, é como a tragédia de um ator que perdeu a voz é traduzida de forma pacífica no dia-a-dia de Kilmer. Em termos práticos, ter sua fala prejudicada foi um preço pago em troca da vida. E seja pintando quadros com uma criatividade pueril, fazendo caretas para a câmera em momentos inesperados, atirando espuma na ex-mulher às vésperas do enterro da mãe, ou se fantasiando de Batman ao lado do filho, o astro surge em câmera sempre consciente da troca e disposto a mergulhar no que ganhou com ela. Nunca ignorando, mas sim perseverando sobre a tristeza.

Amazon Prime Video/Divulgação

Quando Val não está dando um depoimento à câmera com a voz rouca e fraca que tem hoje, nem em gravações anteriores às cirurgias contra o câncer, é Jack Kilmer, filho do astro, quem dá voz às memórias do pai. Esse recurso técnico é também narrativo, já que ajuda a introduzir um dos mais importantes elementos na história contada: a família. Seja por meio da distância e ausência que vinham com a agenda lotada do ator nos anos 1980 e 1990, ou pela proximidade em decorrência da doença, Val apoia sobre a dinâmica familiar boa parte de seu apelo emocional, comunicando momentos dramáticos que atravessam a barreira de privilégios que naturalmente distanciaria a figura central do filme do público e puxando o espectador para dentro da história.

Para o fã mais objetivo de cinema, Val ainda entrega imagens e histórias de bastidores preciosas de filmes como Top Gun - Ases Indomáveis (1986), Tombstone - A Justiça Está Chegando (1993) e o infame A Ilha do Dr. Moreau (1996); isso sem falar nas bundas brancas dos supracitados Kevin Bacon e Sean Penn, em uma zoeira inesperada direto das coxias da conceituada Juilliard School. Essas cenas históricas foram pinçadas das mais de 800 horas de filmagens amadoras que Kilmer acumulou ao longo da carreira, entre registros pessoais e profissionais, e que são usadas pelos diretores Leo Scott e Ting Poo como ferramenta ilustrativa de algo mais profundo e etéreo que só um resgate histórico: um ensaio sobre como um homem obcecado encontrou paz ao ter aquilo que mais valorizava tirado dele.

Assista no Prime Video
Val
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Val
Val

Ano: 2021

País: Estados Unidos

Classificação: 14 anos

Duração: 108 minutos min

Direção: Leo Scott, Ting Poo

Roteiro: Val Kilmer, Jack Kilmer

Elenco: Val Kilmer

Nota do Crítico
Excelente!

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