Bruce Lee na Reserva Imovision

Icone Fechar
Filmes
Crítica

Undertone tem uma boa ideia, mas copia todas as outras de filmes melhores

Design de som não é o bastante para sustentar história que não entende nem a si mesma

Omelete
3 min de leitura
Atualizada em 24.07.2026, ÀS 14H07
Nina Kiri em Undertone (Reprodução)

Créditos da imagem: Nina Kiri em Undertone (Reprodução)

Como centenas de filmes de terror antes dele, Undertone nutre uma fascinação irremediável pela simbologia cristã. Neste caso, o diretor e roteirista Ian Tuason (estreante em longas-metragens) usa a fé fervorosa da mãe de Evy (Nina Kiri), sua protagonista, como desculpa para se demorar em tomadas de cruzes penduradas na parede, quadros de Jesus Cristo com o coração aberto em ferida, estatuetas da Virgem Maria com bebês subindo por seus robes… enfim, tudo o que há de mais escatológico no universo visual da cristandade, e que tem se prestado tão bem ao horror desde que o gênero nasceu.

É possível argumentar que essa conexão serve ao subtexto (ou, dada a falta de sutileza do script, talvez fique mais para texto) do longa, que ensaia falar algo sobre culpa cristã e a forma como as moralidades estritas nas quais fomos criados se chocam com as realidades de nossos desejos e necessidades na vida adulta. Mas a verdade é que Undertone trata essa ideia, e as consequências dela para a história que está contando, com todo o cinismo de quem a encontrou por acaso enquanto tentava emular estratégias mecânicas de medo que funcionaram para outros filmes.

Omelete Recomenda

Esse filão do “terror cristão” não é nem a única vítima de Tuason durante o longa. O horror analógico é outro grande alvo, com a ideia de provocar o medo através dos mecanismos de viralidade da internet e do incômodo que tecnologias ultrapassadas provocam quando colocadas nesse contexto. Daí que Evy é escrita como apresentadora de um podcast de histórias de terror, que ao lado do seu colega de programa (voz de Adam DiMarco) encontra um caso particularmente assustador baseado em gravações de áudio que chegam a eles através de um e-mail anônimo.

Undertone casa essas duas vertentes de forma um tanto desajeitada. Evy está gravando o tal episódio do podcast na casa de sua mãe (Michèle Duquet), que está “nas últimas” – a situação e a ambientação obrigam a protagonista a encarar sua relação com a matriarca, o sistema de crenças que ela representa, e como ela se sentiria sobre a direção em que a filha conduziu sua vida. Tudo isso enquanto ouve uma história de terror sobre maternidade que vai se aproximando progressivamente, e desconfortavelmente, da sua situação atual.

A impressão que fica é que Tuason estava genuinamente interessado, mesmo, em fazer um filme de terror guiado pelo som. É uma excelente ideia, que gera frutos pra lá de bacanas durante a metragem de Undertone, brincando com o cancelamento de ruído dos fones usados por Evy para nos imergir no isolamento que eles provocam e na imprevisibilidade de não saber o que os misteriosos áudios podem revelar a seguir. Com o seu excelente time de design de som (David Gertzman, Seth Copeland, Dane Kelly), Tuason faz um trabalho bastante expressivo no sentido de provocar, através do áudio, a ansiedade característica do gênero em que está trafegando.

O problema é que, diante da obsessão singular por esse aspecto, todo o resto de Undertone parece ter sido negligenciado – ou, ao menos, “chupado” de outros e melhores filmes. A virada no segundo ato, que revela o grande vilão cosmológico da trama, traz ecos de Hereditário; o choque final, revelando Evy como uma narradora pouco confiável de sua própria história, é meio O Sexto Sentido; e outros elementos de trama, da conexão cristã ao vídeo amaldiçoado que pouco ou nada tem a ver com a história central, parecem jogados na mistura só para cobrir todas as bases de alguma cartilha do horror moderno.

No fim das contas, a aposta no som – e o comprometimento exemplar da protagonista Nina Kiri, vale dizer – é muito pouco para compensar uma narrativa tão derivativa, e tão pouco interessada em si mesma.

Nota do Crítico

undertone

undertone

Ver ficha completa Lauch Icon
Terror, Mistério
Duração: 94 min
Direção: Ian Tuason
Roteiro: Ian Tuason
Elenco: Nina Kiri, Adam DiMarco, Keana Bastidas, Jeff Yung, Michèle Duquet, Ryan Turner, Ari Millen, Marisol D’Andrea, Austin Tuason
Data de lançamento: 12 de março de 2026

Comunidade Omelete

Escrever minha crítica


Clique para classificar:

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Escrever comentário


Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.