Uncharted chega capenga ao cinema e precisa recorrer ao "videogame"

Créditos da imagem: Sony Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

Uncharted chega capenga ao cinema e precisa recorrer ao "videogame"

Toda a boa vontade de Tom Holland não basta para injetar vida na adaptação

Omelete
4 min de leitura
Marcelo Hessel
16.02.2022, às 22H40

Esperar que games sejam traduzidos fielmente ao cinema é uma grande quimera, na medida em que as duas mídias - uma interativa e às vezes colaborativa, a outra passiva e unilateral - são distintas por natureza. O histórico de filmes que tentam emular a dinâmica dos jogos, como as câmeras em primeira pessoa de Hardcore, atesta na verdade que essa fidelidade é uma armadilha: quanto mais um filme se aproxima de um jogo, mais frustrante tende a ser a experiência de assisti-lo, porque as diferenças ficam mais visíveis (a não ser que você prefira ver gameplay a ter o controle do jogo em si).

O caso de Uncharted é peculiar, porque o sucesso da série no PlayStation parte de uma certa involução: sua narrativa linear, com pouca margem de agência para o jogador, combinada a uma mecânica de tiro e ação simplificada, tornam a experiência toda muito mais passiva, e é comum ouvir que Uncharted faz sucesso por ser um jogo agradável de assistir. Cenários exuberantes, o imaginário sub-Indiana Jones e cutscenes que conseguem aproveitar de fato o potencial gráfico estabelecido desde a geração do PS3 fazem mesmo parecer que o jogador tem nas mãos uma obra… cinematográfica.

Ironicamente, a transição de Uncharted (de volta) para o cinema se revela bastante fiel porque o longa-metragem estrelado por Tom Holland e Mark Wahlberg também é uma narrativa bem linear, simplória e passiva. A exposição se desenrola de forma burocrática em diálogos que parecem lidos em voz alta num ensaio ao vivo. Personagens discutem o tempo inteiro o que os define como personagens, como se a própria dramaturgia do filme estivesse, no improviso, tentando convencer a si mesma da sua solidez. A volta ao mundo pelo tesouro emula uma nostalgia romântica, com o aviãozinho sobrevoando o mapa de um cenário a outro, mas cada chegada a uma nova locação é estabelecida sem planos de contexto, saltando de uma cena expositiva para outra. Por consequência, as chaves dos enigmas se descobrem sem suspense. Tudo parece escolhido, feito e ordenado para ser apenas inteligível ao espectador.

Para não dizer que tudo é primário, pelo menos os fan services não vêm acompanhados de legenda (coadjuvantes apontando o dedo para acusar o easter egg) e exigem conhecimento de quem assiste. O roteiro cola cenas de ação tiradas de jogos distintos da série para homenagear o fã mais fiel, e quem conhece Uncharted vai perceber que o Nathan Drake do filme se consolida aos poucos visualmente, a cada peça de vestuário, até chegar ao icônico coldre marrom. Hoje é assim que a dramaturgia hollywoodiana se faz: pedaço por pedaço de uma memória que antecede o filme, na esperança de que a nostalgia dê conta do páreo todo. 

De resto, a opção por acompanhar um jovem Nathan Drake pode alienar o fã que espera a conhecida versão do ladrão de bom coração. Aqui, o personagem vivido por Tom Holland surge inocente e bonzinho - decisão tomada, em boa medida, porque foi justamente com esse perfil que o ator de Homem-Aranha consolidou sua persona junto ao público. Temos aqui então um Nathan Drake emocionado, e é curioso acompanhar como o filme se contorce para encaixar no perfil uns desvios morais, como a inclinação do personagem para a bebida. Das demonstrações de malícia não se pode esperar muito, porque elas parecem mais números coreografados de exibicionismo do que exatamente traços de personalidade; o gosto por malabarismo com garrafas, especificamente, deve estar desde as primeiras versões do roteiro, porque é uma coisa muito 2015.

Antes que o leitor relembre outros malabarismos “maneiros” do histórico da Sony Pictures, como as piruetas de skate do Homem-Aranha Andrew Garfield, convém voltar ao filme de ação. A certa altura só resta uma expectativa para Uncharted: a espera por algo que compense todo esse martírio de ver o relógio correr bovinamente. Quando enfim chega o clímax, com suas cenas de ação em CGI com cara de que foram roteirizadas e concebidas mesmo antes da contratação do diretor Ruben Fleischer, a semelhança com os jogos fica ainda mais evidente. Porque os dois grandes momentos deste Uncharted, a sequência do avião cargueiro e o duelo de navios, funcionam como verdadeiras cutscenes de realismo falseado e personagens digitais. É gritante a diferença dessas cenas, organizadas em planos longos (obviamente mais fáceis de realizar no computador do que em live-action), e as lutas “reais” no começo do filme, muito picotadas e mal decupadas espacialmente. 

Ou seja, num filme que desde muito cedo já parece desistir de qualquer esforço narrativo digno de cinema, a salvação é justamente recorrer à solução cinematográfica dos games.

Uncharted - Fora do Mapa
Uncharted
Uncharted - Fora do Mapa
Uncharted

Ano: 2022

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 116 min

Direção: Ruben Fleischer

Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway

Elenco: Tom Holland, Mark Wahlberg, Antonio Banderas

Nota do Crítico
Regular

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