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Filmes
Crítica

Uma Segunda Chance falha em atualizar o melodrama hollywoodiano

Adaptação de Colleen Hoover troca gravidade por marketing

Omelete
3 min de leitura
19.03.2026, às 07H00.
Cena de Uma Segunda Chance (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Uma Segunda Chance (Reprodução)

Há um momento, lá pelo terceiro ato, em que Uma Segunda Chance quase se transforma em um filme interessante. É quando Kenna (Maika Monroe) se vê na casa dos ex-sogros, Grace (Lauren Graham) e Patrick (Bradley Whitford), negociando sua reentrada na vida da família – e especialmente de sua filha, Diem (Zoe Kosovic) – após uma temporada na prisão. Ali, as ideias do filme sobre perdão, mágoa e apego ao passado vêm a cabo de forma genuinamente tocante, enquanto a diretora Vanessa Caswill (Amor à Primeira Vista) explora sutilmente as quebras de normalidade dentro do ambiente doméstico.

É nessas cenas, enfim, que Uma Segunda Chance abraça de vez um território de gênero ao qual sempre pertenceu: o do melodrama hollywoodiano. Virtualmente intocado – ao menos, fora da obra de diretores como Pedro Almodóvar e Rainer Werner Fassbinder – desde os anos 1950, quando os filmes de Douglas Sirk as definiram, essas tragédias domésticas entravam no coração dos Estados Unidos e expunham com grande pompa os desencontros, desenganos e desilusões que aconteciam em suas salas de estar imaculadas, seus jardins manicurados, suas vizinhanças amistosas.

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Uma Segunda Chance, até pela ambientação que herda do livro de Colleen Hoover, tem tudo para fazer a mesma coisa. A história de Kenna se passa na cidade de Laramie, estado de Wyoming, quase literalmente no centro dos EUA, que na vida real tem pouco mais de 30 mil habitantes, e nesta adaptação cinematográfica é recriada para parecer ainda menor – um par de ruas, um par de bares, um par de prediozinhos dilapidados, um bairro suburbano para residentes afluentes. Ademais, Caswill não economiza em tomadas grandiosas dos vales e montanhas que tipificam o interior estadunidense no cinema hollywoodiano.

Dentro desse cenário, o texto assinado por Lauren Levine (Ponte para Terabítia) ao lado da própria Hoover ainda se propõe a contar histórias de personagens bem “sal da terra” para o contexto contemporâneo: a garota simples que, após uma tragédia, vai parar na prisão e encontra dificuldades de se realocar; o atleta sonhador impedido por uma lesão, que volta à cidadezinha onde nasceu e cria laços familiares com os pais do melhor amigo falecido; a comunidade de um motelzinho à beira da estrada, incluindo uma jovem com síndrome de Down e uma gerente que ajuda gatinhos de rua; e por aí vai. 

Tudo muito country, enfim, muito esforçado para ser “gente como a gente”. E o compositor Tom Howe (Ted Lasso) até tenta sublinhar esse impulso com uma trilha ao violão, mas seu esforço é repetidamente erodido pela necessidade marketeira atrelada a Uma Segunda Chance. Depois de É Assim que Acaba, afinal, toda adaptação do fenômeno literário que é Colleen Hoover precisa ser um veículo comercial, e daí que uma coletânea de sucessos pop (e uma canção original de Noah Cyrus, é claro) se intromete na história para quebrar o clima, e cada cena que se posiciona no espectro crível do melodrama precisa ser seguida por um diálogo robótico para estabelecer a química inexistente entre os protagonistas.

Parte da culpa é de Maika Monroe e seu companheiro de cena, Tyriq Withers (GOAT, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado), que se mostram perfeitamente capazes de conjurar credibilidade para seus personagens separadamente, mas inteiramente incapazes de convencer como casal. E, como essa conexão não se estabelece, o núcleo do apelo romântico popularesco do filme permanece ausente conforme ele se arrasta por suas quase duas horas de metragem, deixando o público numa eterna espera pelos elementos dramáticos que de fato funcionam na sua construção. 

Quando eles aparecem (e eles nunca estão mais evidentes do que naquele momento do terceiro ato, que citei lá em cima), Uma Segunda Chance se mostra envolvente. Mas é pouco, e a promessa de dar um novo respiro para o melodrama hollywoodiano – no fundo, eu argumentaria que esse é o apelo estético essencial de toda a Hoover-mania – segue tragicamente irrealizada.

Nota do Crítico

Uma Segunda Chance

Reminders of Him

2026
114 min
País: EUA
Direção: Vanessa Caswill
Roteiro: Colleen Hoover, Lauren Levine
Elenco: Tyriq Withers, Rudy Pankow, Maika Monroe, Bradley Whitford, Lauren Graham
Onde assistir:
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