Uma Nova Chance

Créditos da imagem: STX Entertainment/Divulgação

Filmes

Crítica

Uma Nova Chance

Comédia de Jennifer Lopez tem carisma, mas com uma reviravolta bizarra ela só funciona até a metade

Julia Sabbaga
30.01.2019
16h10

Quando se fala em comédias com Jennifer Lopez, o território parece seguro. A atriz e cantora já tem algumas memoráveis na carreira, como O Casamento dos Meus Sonhos e Encontro de Amor, e há algum tempo não surge em cartaz com uma nova produção. Uma Nova Chance pareceu uma oportunidade para sua volta perfeita, ainda mais por trazer a atriz em um papel de “mulher de negócios poderosa”, tema em alta hoje em dia. Infelizmente, o longa dirigido por Peter Segal (Agente 86, Como se Fosse a Primeira Vez) funciona apenas até a metade. Ao deixar de lado sua premissa principal e focar em um outro caminho, ele se afunda em seus clichês.

Uma Nova Chance tem uma ideia semelhante a Encontro de Amor, tradicional em comédias desde Cinderela. Na trama, Maya (J.Lo) não consegue ir longe em sua carreira por nunca ter terminado o colegial, mas por uma travessura de seu sobrinho que inventa um currículo dos sonhos, consegue um emprego no alto escalão em uma multinacional. A tese do filme, pelo menos em seu início, é que a esperteza das ruas pode ser tão importante quanto um diploma, e tudo funcionaria perfeitamente, mas uma reviravolta absolutamente inesperada desvia a comédia para um dramalhão bizarro.

[Cuidado com spoilers abaixo]

Na metade do filme, descobrimos que a competidora principal da protagonista na empresa, Zoe (Vanessa Hudgens), é, na realidade, a sua filha deixada para adoção há 30 anos, algo que havia sido mencionado brevemente em um momento anterior do filme. Deste momento em diante, Uma Nova Chance se torna um filme sobre reconexão de mãe e filha, e enquanto na primeira parte do filme os clichês não incomodavam, já na segunda parte, ao perder a sua base, nada mais se sustenta.

Não há nada de errado em confiar em fórmulas pré-existentes para encaminhar uma comédia, e o filme, em sua primeira metade, faz isso com um carisma considerável. A melhor amiga que tem filhos descontrolados, o namorado compreensivo e as coincidências da vida que sorriem para a protagonista são elementos costumeiros que fazem perfeito sentido em uma comédia leve e despretensiosa. Mas quando a competição empresarial que ditava o rumo do filme até então é deixada em segundo plano, o desenvolvimento de trama e personagens enfraquece totalmente. Um dos momentos mais claros é quando a melhor amiga rompe a amizade com Maya porque ela “mudou demais”, em um movimento bem semelhante ao Diabo Veste Prada; a diferença é que a protagonista não mudou absolutamente nada e apenas resiste em confessar as mentiras que permitiram que chegasse tão longe. Ainda, o chefe compreensivo, a resolução final e o reatamento do namoro perdem tanto sentido quanto impacto.

Felizmente, o filme começou com simpatia suficiente para se salvar do naufrágio, e o elenco segura a barra o máximo possível, liderado pelo carisma de J.Lo. Vanessa Hudgens está surpreendentemente bem e Leah Remini é um alívio cômico confiável, enquanto Milo Ventimiglia basicamente revive seu papel de Jack em This Is Us. Dentre os mais coadjuvantes, Annaleigh Ashford rouba a cena na primeira metade do filme, como uma simpática e esnobe executiva, mas assim como toda a qualidade do filme, sua personagem se perde gratuitamente no final.

Uma Nova Chance fica como um desperdício de levar a história de Cinderela para a esfera profissional, por querer se aprofundar demais em dramas desnecessários. Se o longa se contentasse em focar no que tem de melhor, e se desenvolvesse em sua simples premissa, seria uma comédia bem-vinda e necessária para os tempos atuais.

Nota do Crítico
Regular