Um Pequeno Favor

Créditos da imagem: Lionsgate/Divulgação

Filmes

Crítica

Um Pequeno Favor

Sem poupar no novelão, Paul Feig entrega comédia investigativa sensual e divertida

Julia Sabbaga
25.09.2018
16h28

Existem alguns elementos que são marcantes nos filmes mais recentes de Paul Feig (A Espiã Que Sabia De Menos, Missão Madrinha de Casamento): um elenco de atrizes impecável, uma trama focada nas potencialidades escondidas da personalidade feminina e, claro, o bom humor. Um Pequeno Favor, seu novo longa, pode ser sua comédia mais excêntrica até hoje. Porém, por mais distante que seja da sua marca tradicional, entrega todos os mesmos elementos muito bem, e só ganha ao apostar em um clima investigativo e sensual.

Baseado no livro de Darcey Bell e com roteiro de Jessica Sharzer (American Horror Story), Um Pequeno Favor conta a história de uma amizade inesperada entre a mãe vlogger Stephanie Smothers (Anna Kendrick) e a bem-sucedida e misteriosa Emily Nelson (Blake Lively). Quando a segunda desaparece, Stephanie parte em uma jornada investigativa à procura de sua recente amiga, descobrindo, também, seus lados mais sombrios. Até sua conclusão, Um Pequeno Favor tem tantas revelações e reviravoltas que acaba parecendo um novelão, mas o talento de Kendrick e a direção estilosa de Feig tiram proveito do rótulo do melhor modo possível.

Blake Lively parece ter encontrado seu papel perfeito e brilha como a femme fatale, mas quem rouba a cena em Um Pequeno Favor é, definitivamente, Anna Kendrick. Já indicada ao Oscar por Amor Sem Escalas, Kendrick se supera ao retratar perfeitamente uma mulher que vive contida por limites auto-impostos, expressando esta personalidade até nos mínimos detalhes físicos. Sua interpretação de uma mulher com um potencial enrustido, que esconde cuidadosamente um lado sombrio, e gradualmente percebe suas capacidades, é deliciosa de assistir. As protagonistas ainda se complementam perfeitamente com uma boa química, tornando a amizade improvável entre Stephanie e Emily simplesmente natural.

Enquanto as interpretações – e as personagens – chamam atenção, Um Pequeno Favor tropeça, talvez, em algumas decisões de roteiro. Assim que Emily some, os indícios de que o caso é suspeito demais para ser verdade constroem alguns dos melhores momentos do filme. A dúvida que permanece durante a trama – será que Emily está morta ou não? – rende ótimas cenas, que remetem desde Dormindo com o Inimigo à A Malvada – mas o suspense, infelizmente, se resolve cedo demais. Eventualmente, Feig falha ao resolver reviravoltas sem atingir clímax. Nesse sentido, a sequência de twists pode aparentar um problema. Contudo, uma vez que a trama é encarada como um novelão, onde cada revelação é simplesmente mais uma constatação na absurda trama, Um Pequeno Favor acaba descendo, basicamente, como uma boa e garantida diversão.

É bom ver Paul Feig inovando a própria assinatura. Já tendo comprovado seu talento em criar comédias com protagonistas femininas, Feig explora um novo gênero e desenvolve a comédia pseudo-noir com maestria, sem economizar em músicas pop francesas, figurinos marcantes e cores vibrantes para criar uma atmosfera que brinca com o doce e o ácido. E mesmo na sua reinvenção, Feig continua acertando exatamente o que sempre acertou: interpretações marcantes e um ótimo humor. 

Nota do Crítico
Ótimo