Um Passado de Presente

Créditos da imagem: Um Presente do Passado/Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Um Passado de Presente

Comédia romântica gratuita inova apenas ao introduzir o universo compartilhado da Netflix

Julia Sabbaga
22.11.2019
16h59

Quando a Netflix intensificou a produção de seu conteúdo original, ela iniciou uma estratégia muito clara cuja qualidade não é prioridade. Isso dá certo, até certo ponto, porque a maioria de seus filmes não tem custo muito alto, e porque, de vez em quando, a plataforma acerta em cheio, fazendo com que a massa de filmes produzidos valha a pena. Infelizmente, para a maioria dos casos, isso se traduz na realização de filmes pobres em roteiro apesar de seu potencial. Este é o caso de Um Passado de Presente, comédia romântica natalina estrelada por Vanessa Hudgens. Apesar de uma premissa simpática que não precisaria sair das fórmulas para conquistar, o filme pena em achar um apelo único, e acaba descendo como um desperdício de história para os envolvidos.

Um Passado de Presente conta a história de Brooke (Hudgens), uma professora desiludida com o amor que cruza caminhos com Sir Cole (Josh Whitehouse), um cavaleiro de 1300 que, pelas artimanhas de uma feiticeira, acaba no mundo atual. Enquanto ela ajuda o antiquado sujeito a se acostumar com o novo mundo, ele tenta entender sua missão na nova época, e a jornada aproxima o casal cada vez mais. Com uma estética que evidencia seu pequeno orçamento, e se assemelha à uma série de TV, e brincando o tempo todo com a falta de maneiras do homem do passado lidando com a modernidade, o filme acerta em algumas piadas, mas qualquer um que viu Encantada ficará frustrado com o humor pouco trabalhado. 

Mas o maior problema de Um Passado de Presente é a descartabilidade de seu propósito. Enquanto o filme se desenrola mostrando o dia a dia dos protagonistas - ao pé da letra, já que vemos os dois montando a árvore de natal, fazendo supermercado, assando pão - a única coisa que segura o roteiro é a cronologia. Não há nada que leve a história para frente a não ser a expectativa da véspera do natal, data limite que a feiticeira deu a Cole para entender sua missão no futuro. Nem mesmo a relação entre os dois, claramente próxima desde o primeiro dia, é aprofundada e trabalhada de modo que justifique a jornada dos personagens. A relação de Brooke com seu ex-namorado é algo esquecido depois dos primeiros quinze minutos e a vida de Cole, que viraria Cavaleiro em sua época, não apresenta nenhum conflito na hora de fazer sua decisão final. 

Um dos fatores surpreendentemente positivos de Um Passado de Presente é Hudgens, que mostra uma habilidade mais experiente e um timing cômico cativante, talvez porque sua atuação encaixa perfeitamente para produções da Netflix como esta. Assim, é quase uma pena que ela não esteja do lado de alguém com um carisma do mesmo nível. Whitehouse não mostra a mesma capacidade da atriz, abrindo a questão que, talvez com um nome maior, Um Passado de Presente pudesse ganhar pontos pela química de seus protagonistas. 

O que distingue o filme de qualquer comédia romântica reciclável que se encontra por aí é a introdução de um universo compartilhado da Netflix. Isso acontece de modos diferentes, como quando, em uma descarada propaganda, Sir Cole liga a TV e assiste Resgate do Coração, outro novo lançamento natalino da plataforma. Mas a referência mais carismática acontece quando a irmã de Brooke, Madison (Emmanuelle Chriqui), cita o reino de Aldovia - onde se passa O Príncipe de Natal, sucesso natalino da Netflix - ao relembrar o passado dos pais. As possibilidades da plataforma neste sentido são infinitas, por mais mornas que sejam as produções. 

A repetição de fórmulas e clichês nunca foi um problema para comédias românticas, que sempre souberam reciclar modelos antigos com facilidade. Apesar de Um Passado de Presente apresentar potencial em sua história, o longa passa o sentimento de que não houve um comprometimento em desenvolver a trama em algo distinto. No fim das contas, ela soa como mais um desperdício da plataforma, que poderia ter utilizado Hudgens e a premissa em uma produção mais simpática.

Nota do Crítico
Regular