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Crítica

Um Dia para Viver | Crítica

Ethan Hawke entra para os filmes de justiceiros grisalhos em grande estilo

Marcelo Hessel
06.06.2018
16h10
Atualizada em
07.06.2018
18h02
Atualizada em 07.06.2018 às 18h02

A vantagem dos thrillers de ação baratos como Um Dia para Viver (24 Hours To Live) não é só encampar premissas absurdas sem pudor - neste caso, a história de um matador que morre em uma missão e é ressuscitado provisoriamente com uma nova técnica médica, apenas para entregar a seus chefes uma informação vital na caçada a um alvo - mas também criar personagens sem os meios termos do "bom gosto" hollywoodiano.

No caso de Travis Conrad, um viúvo que mata sem remorso (o personagem quase literalmente não tem coração, pois passa a maior parte do filme com uma cicatriz que lhe atravessa o peito onde ficaria o músculo), essa falta de meios termos permite que Ethan Hawke brilhe criando um assassino amoral em busca de redenção sem os sentimentalismos costumeiros nesse tipo de suspense. Toda a sequência em que ele seduz, engana e depois entra num tiroteio com sua coprotagonista é absolutamente crua e, por si só, já basta para definir ao espectador quem é Travis, quais são seus charmes, do que ele é capaz - e quais são suas fraquezas.

O que temos aqui é um thriller que poderia ter sido feito por Michael Mann (nas dinâmicas de frieza entre protagonistas) ou Neveldine/Taylor (a premissa da contagem regressiva e das alucinações lembra bem Adrenalina), mas o diretor Brian Smrz realiza Um Dia para Viver sem maneirismos que configurariam uma visão "de autor". Coordenador de dublê promovido a diretor pela produtora Thunder Road Pictures (que já havia feito o mesmo nos filmes de John Wick), Smrz nunca deixa de operar com um senso de eficiência - a ação tem que ser clara, a exposição tem que apresentar Travis de forma concisa, a trama precisa se desenrolar sem gorduras.

É o modo de operação consagrado nos filmes direto para home video (como Um Dia para Viver foi lançado nos EUA), onde estão alguns dos melhores exemplares de coreografia de ação feita hoje em dia. Smrz se orienta pela ação para andar com a trama e desenvolver personagens, coloca todo seu dinheiro em efeitos práticos (coreografia de lutas e batidas, tiros, sangue) muito convincentes, e se permite exageros pontuais de caracterização (o QG no final é o prédio comercial mais sem graça, mas que beleza de mesa e poltrona de parafusos chumbados, parece lar de vilão de 007).

Especialmente, Smrz abre espaço para Hawke compor Travis sem amarras. O ator está no seu auge; entrega na presença de cena, no charme e nas caretas. Hawke atingiu um grau ideal de confiança, persona e despreocupação, quase como um Sean Penn sem todo o peso da autoimportância. Com Um Dia para Viver, ele entra no filão das franquias de justiceiros grisalhos para rivalizar com Liam Neeson de igual para igual.

Nota do Crítico
Ótimo