Um Dia de Chuva em Nova York

Créditos da imagem: Um Dia de Chuva em Nova York/Gravier Productions/Divulgação

Filmes

Crítica

Um Dia de Chuva em Nova York

Charme da cidade e fotografia tentam salvar filme ultrapassado de Woody Allen

Julia Sabbaga
20.11.2019
14h08

A figura controversa de Woody Allen é ainda mais delicada de ser discutida em 2019. As acusações de abuso de seu passado estão mais latentes do que nunca e, enquanto nada é comprovado, o diretor segue seu trabalho desviando de métodos tradicionais, apesar dos obstáculos. Seu contrato com a Amazon Studios foi rompido e, com o atraso no lançamento de seu último filme, Um Dia de Chuva em Nova York, 2018 se tornou o primeiro ano desde 1981 que não contou com um filme do diretor nos cinemas. Tudo isso, em teoria, não deveria afetar críticas ao seu trabalho, que não têm relação com as denúncias ou sua vida pessoal. Isso seria mais fácil de lidar, no entanto, se Allen não deixasse transparecer tantos elementos problemáticos em alguns de seus filmes. O mais novo lançamento é certamente um exemplo disso. 

Contando a história de um casal que acaba afastado quando passa um fim de semana em Manhattan, Um Dia de Chuva em Nova York traz o cineasta lidando com uma série de temas já abordados antes, inclusive em trabalhos recentes. Em um fatídico sábado chuvoso, Gatsby (Timothée Chalamet) vaga pelas ruas esperando Ashleigh (Elle Fanning), enviada para o local para entrevistar o famoso diretor Roland Pollard (Liev Shreiber). Enquanto a jovem se vê perdida em encontros de Hollywood - passando a tarde com o roteirista Ted Davidoff (Jude Law) e o astro Francisco Vega (Diego Luna) -, Gatsby reencontra a irmã de sua ex-namorada, Shannon (Selena Gomez), e esbanja sua melancolia romântica pela cidade. 

Os personagens de Um Dia de Chuva em Nova York não são nada inéditos. Ele, um sujeito taciturno apaixonado por Nova York, e ela, uma efervescente e ingênua jornalista, formam um casal tão sem sentido como o de Meia-Noite em Paris, mas desta vez, existe ainda menos motivos para gostar de algum dos dois. Enquanto (o irritantemente nomeado) Gatsby é propositalmente enjoado, Allen perde diversas oportunidades de desenvolver a personalidade de Ashleigh, e seu potencial desperdiçado a reduz exatamente ao olhar dos homens ao seu redor: ela é uma musa e nada mais.

Um dos problemas mais imediatos de Um Dia de Chuva em Nova York é uma visível incompreensão da realidade ou da juventude atual. Focando em jovens de 20 e poucos anos em plenos anos 2010, o filme deixa claro que Allen acerta mais quando retorna ao passado ou constrói personalidades mais velhas. Assim, a verborragia, as bizarras referências aos anos 1930, ou até a ausência de tecnologia é gritante. Complementado pela falta de coerência entre o casal principal, uma nostalgia óbvia, ou a inquestionada oportunidade de uma jornalista de faculdade entrevistar um grande diretor, o clima de Um Dia de Chuva em Nova York parece mais um mundo que existe apenas na cabeça de Woody Allen. Assim, a construção de personagens com neuroses reais, que sempre foi uma das grandes qualidades do diretor, aqui, perde sua base. 

Os papéis que chamam atenção nesse contexto, e realmente soam como figuras de seu tempo, são apenas a personagem de Selena Gomez e um coadjuvante que tem menos de cinco minutos de tela, Ben Warheit, que interpreta um ex-colega de escola do protagonista. Gomez, aliás, ganha destaque na atuação por ser um refresco das tradicionais interpretações vistas nos filmes do diretor. Enquanto Chalamet investe em na figura tradicional dos protagonistas de Allen e Fanning chama atenção (como sempre) com suas gesticulações incessantes, é Gomez que parece despreocupada com os moldes. Jude Law, aliás, se contorce estranhamente tentando demonstrar as neuroses costumeiras do cineasta. 

O charme de Nova York, capturado pela ótima fotografia de Vittorio Storaro, é o que tenta salvar Allen de sua exaustão. Mas é quase impossível separar o filme da realidade quando ele insiste em fazer Gatsby questionar por que mulheres jovens gostam de homens velhos, ou mostrar Ashleigh se declarando pelo trabalho de Pollard, elogiando cada decisão artística dos filmes do diretor. A cena soa como uma auto-bajulação digna de revirar o olho, e a jornada de Ashleigh, que passa de homem a homem, é certamente deslocada nos rumos do cinema atual. 

Com cenas belamente construídas - a chuva de Nova York na câmera de Allen é certamente encantadora - e algumas boas piadas, Um Dia de Chuva em Nova York, poderia cair como “apenas mais um filme de Woody Allen”, assim como algumas de suas produções recentes. Mas sua desconexão com a atualidade cria personagens impossíveis de simpatizar, um obstáculo que nem os melhores atores da nova geração conseguem superar.

Nota do Crítico
Regular