Filmes

Crítica

Turma da Mônica: Laços

Filme da turminha é exemplo de adaptação e garantia de agrado aos fãs

Julia Sabbaga
18.06.2019
13h06
Atualizada em
27.06.2019
20h00
Atualizada em 27.06.2019 às 20h00

Quando foi anunciada a produção de um live-action da Turma da Mônica, foi difícil não ficar com um pé atrás. A hesitação é normal, já que qualquer adaptação de obra literária é arriscada, mas no caso da turminha que existe nos quadrinhos desde o fim dos anos 50, a questão era mais pessoal para o público brasileiro. A criação de Maurício de Sousa é parte do imaginário cultural do país e acompanhou o crescimento de diversas gerações, o que fez do risco particularmente delicado. Felizmente, Turma da Mônica: Laços transborda comprometimento e qualidade, e o live-action da turminha não deixa a desejar em nenhum aspecto.

Baseada na HQ homônima de Vitor e Lu Cafaggi, Laços acompanha a turma de Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão à procura do Floquinho, e apesar de seguir fielmente a história dos irmãos, traz os personagens em um universo muito mais parecido com o gibi clássico do que com as páginas da HQ. Laços levou a trama mais madura e levemente mais sombria para uma adaptação mais próxima dos fãs das revistinhas, uma escolha que faz sentido para atingir o público infantil mas também deve agradar ao público geral. Com carisma de sobra, o longa vai animar os fãs das antigas  com cameos e easter eggs espalhados por todo lugar. Como uma adaptação de quadrinhos na era dos filmes da Marvel, claro que uma aparição de Maurício de Sousa à la Stan Lee era esperada – e ela é perfeita.

O escolhido para comandar o projeto foi Daniel Rezende, e o nome não poderia ter sido mais certeiro. A vontade do diretor de levar os personagens queridos às telas com a energia que cada um deles tem nas páginas dos gibis é muito claro, mas não é por aí que seu mérito para. Laços tem um ritmo único que combina adaptação de HQs e filme infantil, sem perder timing de piadas e seguindo uma estrutura de aventura juvenil. Ele não perde fôlego e não delonga em sequências alternativas, algo que correu o risco na cena que introduz Louco, uma adição exclusiva do longa. A direção de arte, que chamou atenção logo nos primeiros teasers, é tão boa quanto parece: o filme criou o Bairro do Limoeiro perfeitamente, e a escolha de inserir os personagens em um universo à parte – com telefones fixos, vendedores de rua, praças e parques – foi perfeito para não tirar a magia das páginas. Ela simplesmente levou a magia às telas.

Enquanto todos os aspectos técnicos de Laços são dignos de menção, existe algo que fez do filme o que ele é, e que sem ele o projeto poderia ruir por completo: o elenco. Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e Gabriel Moreira (Cascão) formam um quarteto perfeito, que parece ter nascido para interpretar seus papeis. A força da Mônica, teimosia do Cebolinha, deboche do Cascão e graça da Magali estão todos ali, nas melhores representações possíveis. E não é apenas individualmente que os quatro se destacam. A parceria entre cada duplinha de amigos e a química entre Mônica e Cebolinha conseguiu ser levada às telas perfeitamente. Falando em elenco, é admirável também a caracterização de cada um dos pais dos personagens, além de secundários como Titi, Aninha, Jeremias, Maria Cascuda e por aí vai.

Enquanto a HQ relembra a primeira infância dos quatro, Laços de Daniel Rezende escolheu mostrar seus personagens sem flashbacks da origem de seu encontro, e tomou a liberdade de inserir certos elementos de Lições, a HQ seguinte, neste primeiro filme. A escolha pode parecer curiosa, já que as lembranças poderiam ajudar a introduzir a turminha, mas acabou fazendo sentido com a duração e o cuidado com o qual cada elemento foi introduzido. Não há uma real necessidade de antecedentes ou reafirmações.

Por fim, Turma da Mônica: Laços marca o cinema nacional como uma obra exemplar de técnica, carisma, e adaptação de um dos nossos maiores patrimônios. É delicioso testemunhar o comprometimento da produção com o longa, o que faz com que cada fã do público se sinta representado de alguma forma pelo trabalho de Daniel Rezende. A sensação de que um fã qualificado tomou algo tão querido nas mãos é gratificante.

Nota do Crítico
Excelente!