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Filmes
Crítica

Tudo Pode Ser Visto é um teste sensorial sem respostas certas

O novo documentário da A24 te deixará pensando sobre ele por alguns dias

Omelete
3 min de leitura
Atualizada em 29.10.2026, ÀS 09H26
Tudo Pode Ser Visto

Créditos da imagem: Divulgação/A24

Caso você pergunte sobre Tudo Pode Ser Visto para alguém que já conhece o trabalho de Nathan Fielder, a resposta deve ser algo em torno dele ser um diretor que borra a linha entre a verdade e a ficção. Esse aspecto tem sido amplamente usado como a descrição mais básica possível sobre o documentário da A24, mas mesmo antes de sentar para assistir ao filme, eu já não concordava tanto com essa simplificação; se fosse escolher um único trejeito para descrever Fielder, usaria sua tendência por extrapolar a forma que encaramos dinâmicas sociais.

Por dinâmicas, aliás, quero dizer absolutamente tudo que rege comunidades humanas: conversas, empregos, amizades, romances e por aí vai. Todos esses elementos são desvirtuados de alguma maneira quando Fielder está por trás (ou à frente) das câmeras, constrangendo o espectador de forma a causar reações viscerais.

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Ao lado de Lance Oppenheim, e tendo os personagens mais escusos de sua carreira nas mãos, ele entrega em Tudo Pode Ser Visto uma síntese refinada daquilo que já cultivou como marca registrada em O Ensaio, Nathan For You e The Curse. Uma “esquisitice” que desafia constantemente seus interlocutores a pensarem se ele está falando sério. Elizabeth Holmes e Billy Evans, por sua vez, não têm o menor receio de serem tão malucos quanto qualquer pessoa na sala, fazendo com que toda cena do filme seja absolutamente imprevisível.

Holmes, afinal, foi presa justamente por sua capacidade de enganação. A ex-CEO da Theranos, empresa que prometia realizar inúmeros exames usando apenas uma gota de sangue (tecnologia esta que nunca funcionou de verdade), convenceu milionários de que seria a próxima Steve Jobs antes de ser pega no pulo. Evans, que não era tão conhecido do grande público, se mostra como alguém determinado a acreditar e dar apoio a qualquer loucura proposta pela sua namorada.

O caos da mistura entre o casal e a sem-vergonhice de Fielder é o que faz com que o documentário funcione. Em cenários menos voláteis, acompanhar os 34 dias que antecedem uma prisão poderia resultar em um material completamente monótono, e ainda que o produto final tenha seus momentos mais calmos, eles só estão ali para que o espectador tenha tempo de processar o que ele acabou de ver, e de se preparar para a próxima insanidade.

Dadas todas essas informações, não é meu papel revelar muito mais sobre o que acontece ao longo das três horas de Tudo Pode Ser Visto. O conceito de “spoiler de documentário” pode parecer contraditório por si só, mas tenha em mente que esse projeto permaneceu em segredo absoluto por anos. Ainda que saber o básico sobre Fielder e Holmes entregue um pouco das possibilidades, a graça está em justamente quebrar qualquer expectativa que possa ser criada pelo público.

Para além das esquisitices, entretanto, o filme não deixa de ter seus aspectos mais palpáveis que independem de dinâmicas sociais. A fotografia claustrofóbica é sentida desde a primeira cena, transmitindo uma intimidade que é necessária para embarcar na narrativa; a iluminação totalmente natural, sem uso de maquinários usuais, endossa ainda mais o lado visual, complementando uma estética que já virou marca registrada — não à toa, a quantidade de distribuidoras que fizeram paródias do pôster é gigantesca.

A impressão é de que esse cuidado mais técnico passa justamente pelas mãos de Oppenheim, que traz a experiência documentarista de Some Kind of Heaven e Spermworld: enquanto Fielder é o elemento caótico responsável por trazer à tona a psique deturpada de Holmes e Evans, sua dupla é quem cuida de veicular essas faíscas da melhor forma.

A proposta de parar por três horas para assistir a um documentário passa longe de ser atrativa para boa parte do público, mas Tudo Pode Ser Visto justifica não só o tempo dentro do cinema, como também os dias de reflexão que virão a seguir. Goste ou não do que verá, é impossível terminar de assistir a esse filme sem ter sentido nada.

Nota do Crítico

Excelente!

Tudo Pode Ser Visto

You Can See Everything

Duração: 174 min
Direção: Nathan Fielder, Lance Oppenheim
Elenco: Nathan Fielder, Elizabeth Holmes, Billy Evans
Onde assistir:

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