Tudo é Possível é uma comédia romântica bem intencionada mas indecisa

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Crítica

Tudo é Possível é uma comédia romântica bem intencionada mas indecisa

A história de amor entre uma jovem trans e um rapaz indiano passa por uma ótica indecisa

Omelete
3 min de leitura
22.07.2022, às 12H20

Existe uma corrente de ideias dentro da comunidade LGBTQIA+ de que o tipo ideal de ficção é aquele que coloca personagens gays e trans dentro de uma história para que eles sejam mais que apenas uma orientação e um gênero. Essa corrente acredita que a naturalização é o caminho mais eficaz para ir transformando, aos poucos, o imaginário coletivo. É o que David Levithan já faz em sua literatura, por exemplo; ou o que Sex Education promove quando não faz nenhum outro personagem da série questionar a amizade entre um menino gay e um menino hetero. Está ali, é natural, não tem que ser problematizado.

Billy Porter, diretor de Tudo é Possível, se tornou um rosto conhecido no mundo por conta de Pose, uma série feita dos pés à cabeça para ser um brado político. Era de se esperar, então, que sua primeira incursão na cadeira de diretor fosse refletir seus anos de Broadway ou seu currículo tomado de prêmios dramáticos. Eis que a Amazon apresenta um longa totalmente apoiado em bases juvenis, com uma história teen, carregada no romance, dominada pelo colorido e com doses cavalares do mais desavergonhado otimismo.

Uma coisa está ligada à outra, é claro. Kelsa (Eva Reign), a protagonista, é trans. Como toda menina de 17 anos ela está dividida entre o que fazer com o futuro e como lidar com as expectativas românticas do presente. Até que, numa aula de artes, ela conhece Khal (Abudakr Ali) e a atração imediata coloca ambos diante de uma circunstância nova. Desse jeito, o roteiro de Ximena García Lecuona usa a base das comédias românticas típicas do mundo cis para naturalizar a presença de uma protagonista trans. O problema é que, ao mesmo tempo, Kelsa ser trans é o conflito em que se escora a dramaturgia do filme. Até que ponto esse ato de naturalização estaria mesmo funcionando?

Tudo é impossível

Durante a primeira parte, parece que o objetivo dos envolvidos é contar uma história de amor como qualquer outra, apostando de verdade na inserção de um elenco pautado em diversidade, sem se preocupar em sublinhar isso, usando de propósito todos aqueles signos tão identificáveis para todos nós. Ao passo em que Porter explora lindamente as belezas de Pittsburgh e faz desse um dos grandes trunfos do filme, ao mesmo tempo, sua direção é genérica e não imprime o retorno de expectativas inevitáveis que seu nome trouxe ao longa.

Na segunda parte do filme - e especialmente nos últimos 20 minutos - o roteiro parece mudar de ideia e começa a enxertar na história uma série de cenas de confronto, que, de repente, estão todas pautadas no fato de Kelsa ser trans. Até o plot do banheiro é devidamente reutilizado. De súbito, as enraivecidas brigas entre os personagens parecem fora do tom, acontecendo num nível acima do condizente com o que foi preparado até ali. É até mesmo curioso que isso aconteça, uma vez que o roteiro foge sem medo de todo e qualquer conflito realmente substancial.

Tudo é Possível é um filme divertido, com bons diálogos, uma direção ágil e boas intenções. Mas é indeciso. Todo o universo que ele promove é agradável quando se mantém na superfície. Contudo, a qualquer sinal de esforço para aprofundar qualquer coisa, os objetivos colidem e o filme se transfigura. Toda a agilidade nos distrai do fato de que nada naquela escola ou naquelas famílias soa verossímil. Assumir essa quase “distopia momentânea” seria uma ótima forma de justificar a falta de recheio. Quando eles tentam provar que são reais, falham miseravelmente e acabam só sublinhando que tudo não passa de um drama de poucos centavos.

Apesar dessa instabilidade conceitual, o filme se sustenta no carisma de Eva e na boa química do casal protagonista. Talvez essa dificuldade de se decidir entre a naturalização e a politização não seja perceptível para todo mundo, mas o resultado disso – que é uma profunda entrega à superficialidade – esbarra no radar de qualquer espectador. O nome desse radar é memória. Infelizmente, Tudo é Possível é um filme esquecível. 

Tudo é Possível
Anything's Possible
Tudo é Possível
Anything's Possible

Direção: Billy Porter

Elenco: Abubakr Ali, Eva Reign, Renée Elise Goldsberry

Nota do Crítico
Regular

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