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Triplo X | Crítica

Triplo X

Marcelo Hessel
06.09.2002
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h13
Atualizada em 21.09.2014 às 13h13

Um crítico gastronômico não deve malhar um sanduíche de boteco porque a fatia do presunto está grossa demais. Mas ele tem a obrigação de detonar um restaurante francês esnobe que faz foie gras com patê de fígado Swift. Os dogmas da crítica cinematográfica seguem o mesmo conceito. Um filme se avalia primeiro pela sua proposta, só depois pela qualidade.

Velozes e Furiosos (The Fast and The Furious, de Rob Cohen, 2001) tem ótimas cenas de ação, Vin Diesel mostra um carisma promissor. Mas o filme apresenta muitos erros e uma proposta alta demais: sua trama policial, supostamente séria, tenta discutir dilemas éticos, mas acaba como uma cópia piorada de Caçadores de Emoção (Point Break, de Kathryn Bigelow, 1991). Milhões de dólares depois, o diretor Cohen, o produtor Neal H. Moritz e o astro Diesel decidiram partir para outra aventura. Aqui entra Triplo X (XXX - Triple X, 2002) e explica-se a minha tosca metáfora sobre gastronomia. A grosso modo, Triplo X é um grande boteco, Velozes se parece como restaurante francês.

A proposta do filme se resume a uma saudável e divertida sátira. Os mesmos clichês que enfraqueceram o primeiro, agora se tornam aliados. A série de James Bond é avacalhada nos mínimos detalhes, desde os equipamentos sofisticados até os vilões e seus submarinos letais, passando pelas mulheres sedutoras, os automóveis incrementados e até mesmo um providencial pára-quedas, com as cores da bandeira norte-americana.

A história começa, como em 007, com uma sequência matadora. Atleta dos X-Games, adorado pelos jovens e odiado pelas autoridades, Xander "XXX" Cage (não confunda com o marido da Carla Perez... se pronuncia "Zander") rouba o carro de um senador moralista - e se atira ponte abaixo com o veículo. Em seguida, acaba pego pelos federais - e pelo Serviço Secreto do país, que planeja cooptar Cage e utilizá-lo como bucha-de-canhão numa missão européia. Augustus Gibbons (Samuel L. Jackson), diretor dos espiões, explica o caso: em algum lugar de Praga, a belíssima capital da República Tcheca, se esconde o movimento terrorista "Anarquia99", que planeja, lógico, construir uma arma bem potente, capaz de destruir o Ocidente e assim dominar o planeta. XXX deve se infiltrar no movimento e sabotar os planos do Mal.

Triplo X exibe tudo isso com muita movimentação e, principalmente, com uma inspiração abertamente trash, como um sanduíche de mortadela num pão amanhecido estrategicamente esquentado na chapa. Quer exemplos? Não dá para levar a sério as acrobacias de Cage na Colômbia, o desfecho da avalancha de neve, os cientistas russos presos no laboratório ou a solução deCage para os mísseis químicos, entre outras coisas.

Além disso, os personagens caricatos também divertem: a cara amarrotada de Jackson, a canastrice do vilão (Marton Csokas) e a falta de personalidade da bonita Asia Argento, no papel da "Bond Girl", ora mal-humorada, ora empolgada e apaixonada. No caso de Vin Diesel (na verdade, Mark Vincent, 35 anos, ex-leão de chácara), a sua mistura de charme e truculência convence. Mas, com exceção do bacana xXx tatuado na nuca, todos os outros desenhos no seu corpo parecem rascunhos malfeitos.

No fim das contas, a única parte levada a sério (e que merece atenção, pois é o que vale o ingresso) é o trabalho dos dublês, bem realista. Diesel arrisca uns saltos, mas os heróis são os skatistas, bikers e paraquedistas reais. Houve, inclusive, uma tragédia durante as filmagens. Militar aposentado da Marinha, o veterano dublê Harry L. OConnor, coordenador das cenas aéreas, morreu ao se chocar, de paraglider,contra uma pilastra da ponte Palacky, em Praga. Cohen dedica o filme à memória de OConnor.

As peças promocionais criadas para o filme vendem Cage como "Um Novo Estilo de Agente Secreto". Esqueça. No fundo, Triplo X é pura diversão. Em meio a tantas referências manjadas a 007, soa como uma provocação tão esnobe quanto um souflé.

E independente da sua fome, uma coisa é certa: você vai poder repetir este prato em breve. Vin Diesel já assinou contrato para uma continuação. Nada que US$ 20 milhões não pague.

 

Nota do Crítico
Bom