Regina Casé em Três Verões

Créditos da imagem: Três Verões/Divulgação

Filmes

Crítica

Três Verões

Regina Casé é corpo e alma no conto de Sandra Kogut sobre as duas faces do jeitinho brasileiro

Natália Bridi
08.09.2019
21h53
Atualizada em
08.09.2019
22h36
Atualizada em 08.09.2019 às 22h36

Há um lado da corrupção que não aparece nos jornais, tampouco toma forma nas infindáveis discussões que dividiram famílias no Brasil. O que acontece depois que a casa cai? Sandra Kogut dá a resposta em Três Verões, um conto bem humorado sobre o jeitinho brasileiro e as suas diferentes encarnações sociais.

É a história de Madá (Regina Casé), zeladora de uma luxuosa casa em Angra dos Reis. “Final de ano é o inferno do caseiro”, diz ela quando seu sonho de ter um quiosque na beira da estrada é interrompido por uma ligação sobre a chegada dos patrões. Ao longo dos três verões do título ela vai lidando com os problemas dos donos da casa enquanto busca um lugar para si. Porém, o que começa apenas como luta de classes logo se transforma na representação da piada pronta que se tornou o Brasil.

Quando o patrão de Madá é preso em uma operação contra a corrupção, o retrato da família rica e feliz se desfaz, deixando a casa de veraneio para os empregados - que estão há meses sem receber. Em uma conversa por Skype, o roteiro de Kogut e Iana Cossoy Paro exemplifica o abismo social. “Mesmo nesse momento difícil ele queria dizer que gosta muito de vocês”, diz o advogado do patrão, como se o trabalho fosse um grande favor, como se cobrar os salários atrasados fosse ingratidão. É o rico que não vê o pobre como indivíduo, como alguém que precisa sustentar a própria vida. O desaforo vira autorização para Madá e Cia. virarem o jogo como podem, seja com um passeio de lancha pelas mansões dos milionários presos ou na transformação da casa de luxo em um Airbnb.

Por ser episódico, Três Verões depende completamente do talento de Casé para ganhar consistência. Ela é a alma e também a base do filme. Quando não está em cena, mesmo que por breves momentos, tudo perde o peso. Isso se torna ainda mais evidente no terceiro ato, que usa o vínculo entre Madá e Seu Lira (Rogério Fróes), o patriarca da família deixado para trás entre escândalos e separações, para arquitetar a sua conclusão. Sempre como agente das soluções - capaz de fazer sushi de salsicha para agradar quem não come peixe cru - ela é deixada em uma postura passiva. Quando sai do seu controle, o arco que vinha sendo construído aos poucos em torno do carisma de Casé cai em uma receita simples para uma conclusão emocional, ainda que seja uma recompensa bem-vinda pelos seus esforços.

O jeitinho brasileiro, afinal, representa o melhor e o pior do seu povo. É a causa da corrupção endêmica e também a forma como, apesar de tudo, o país continua de pé. Para cada malandro que acha que só ele é esperto existe uma Madá para transformar a bagunça e seguir em frente.

Nota do Crítico
Bom