Trapaceiros | Crítica
Trapaceiros
A comédia "Trapaceiros" ("Small Time Crooks", 2000), de Woody Allen, é a primeira produção do renomado diretor, roteirista e ator nova-iorquino em parceria com a DreamWorks, gigantesco estúdio de Steven Spielberg. O que isso significa&qt& Primeiramente e mais importante, NÃO garante que os filmes de Allen cheguem ao Brasil, escoltados pelo poderoso lobby que a empresa exerce junto a distribuidores. As dificuldades em trazê-lo para o país devem permanecer, assim como os atrasos costumeiros, devido à pouca receptividade do público brasileiro. NÃO garante, também, que a média de produção do diretor, cerca de uma película/ano, se consolide com a ajuda dos poderosos. A DW se compromete a lançar apenas suas comédias mais leves, e não qualquer drama que Allen venha a elaborar.
Em segundo lugar, menos perceptível, a mudança estrutural subentende uma transformação das próprias obras de Allen. "Trapaceiros" foge um pouco do estilo do diretor, pois utiliza mais o humor físico e as piadas inofensivas do que a costumeira acidez com que Allen trata o cotidiano de sua metrópole. Aproxima-se, inclusive, de seus primeiros filmes, como "Um Assaltante Bem Trapalhão" ("Take the Money and Run", 1969). Apesar de suave, o novo tratamento dedicado ao tom narrativo trouxe alterações pesadas. Antes, Allen não conseguia acumular grandes dividendos de bilheteria nem mesmo em Nova York. Assim que "Trapaceiros" estreou nos EUA, veio a surpresa. Famílias inteiras rumavam ao cinema, fato que deu ao diretor um retorno impensado para os seus padrões, mais de US$ 15 milhões.
Em termos comparativos, no meio de uma produção tão extensa e de tão boa qualidade, "Trapaceiros" tem avaliação regular. Não chega perto dos grandes clássicos da neurose urbana ou dos insucessos amorosos, como "Manhattan" (1979) ou "Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar" (1972), mas diverte com uma trama singela e despretensiosa. Ray Winkler (Allen), um lavador de pratos com pretensões de grande gênio do crime, pretende assaltar um banco. Para isso, planeja cavar um túnel que o leve do porão de uma loja vizinha até o cofre. Aqui entra a sua esposa, Frenchy (Tracey Ullman), uma suburbana como muitas, especializada em biscoitos e macarronadas, mas que sonha com a alta sociedade. Enquanto Winkler e seus comparsas cavam o buraco, Frenchy administra a doceria. Acontece que o plano não dá muito certo - ao contrário dos doces de Frenchy, já famosos na cidade toda.
As insinuações críticas sobre o estilo de vida dos ricaços e dos "emergentes" culturais representam o modo clássico da comédia de Allen. O que predomina em "Trapaceiros", entretanto, para infelicidade de muitos fãs, são as tiradas físicas que provocam riso fácil. Para aqueles que se enervam facilmente com os trejeitos exageradamente neuróticos de Allen, "Trapaceiros" pode não ser tão recomendável como seus outros filmes recentes. O Allen-diretor também escorrega, na previsibilidade da condução, do meio para o fim. Não faltam piadas ótimas, nem atuações competentes. Mas sobra inocência. A parceria com a DreamWorks e a opção por um humor mais "família" esconderam a malícia e a ironia que fizeram Allen famoso.
Imagens Copyright ©2000 Dreamworks SKG
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Small Time Crooks
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