Toy Story 5 usa nostalgia para nos lembrar que o brincar também amadurece
Filme brinca com transição tecnológica e as novas formas de se viver a infância
A franquia Toy Story é uma das mais amadas do mundo, especialmente quando limitamos essa régua às animações. Ainda assim, sempre há do que reclamar. Você, caro leitor, pode, por exemplo, ter odiado o fato de o Andy não ser mais o dono dos brinquedos, de a Bonnie nunca ter brincado com o Woody e até da desatenção que ela dá aos seus bonecos nesse quinto filme da franquia, mas uma coisa é inegável, tudo isso reflete no próprio espectador o poder que o amadurecimento tem em tudo - e em todos nós.
Talvez o problema não tenha sido a troca de crianças, mas sim o fato de os filmes esfregarem na nossa cara que o Andy cresceu e nós também. O mesmo se repete com Bonnie em Toy Story 5, mas de maneira bem mais desacelerada. Como acontece com qualquer ser humano, chegou o momento mais crucial para a socialização dela - fazer amigos. Enquanto todas as suas amiguinhas estão entregues às telas de internet, Bonnie se sente excluída e envergonhada por ainda brincar com brinquedos - mesmo estando na idade para isso.
Como solução, seus pais lhe presenteiam com o objeto mais cobiçado de sua geração - um tablet chamado Lilypad. É neste momento que a trama do filme se estabelece e divide todas as camadas do roteiro, provando que mesmo após 30 anos, a franquia da Pixar ainda sabe se reinventar. Com a chegada de Lilypad, Bonnie tem uma transição forçada do analógico para o digital. Em um primeiro momento, a crítica do filme parece focar em atacar a dependência digital de forma feroz, mas logo vemos que o caminho é mais complexo do que isso - assim como na vida real.
Para tentar recuperar o protagonismo da vida de Bonnie, Jessie recorre ao “aposentado” Woody, enquanto Buzz fica encarregado de cuidar das coisas da casa, assumindo um protagonismo que antes não lhe pertencia. Em determinado momento, vemos o grupo se separar, como já é costume nos filmes da franquia. Esse desvio não é aleatório — é onde o filme concentra sua crítica mais honesta em Jessie. A vaqueira retorna à fazenda que foi a sua primeira casa e encontra praticamente tudo mudado: animais diferentes, brinquedos antigos, porém mais novos do que ela esquecidos em uma casinha de bonecas (o personagem de Bad Bunny aparece aqui) e uma nova criança. Ela se une a Rolinho, Atlas e Snappy para tentar voltar para casa.
O encontro com esses brinquedos pré-hightech começa a mexer com os sentimentos de Jessie, que está dividida entre sua saga para se livrar de Lilypad e a amizade que está construindo com a geração que ela acredita ameaçar a sua existência. É aqui, longe da ação de crianças, que o filme começa a fazer sua crítica mais importante. A tecnologia não é inimiga das crianças. Assim como Rolinho, Atlas e Snappy foram criados com propósito de aprendizagem, a Lilypad também. Com a supervisão de um adulto a brincadeira pode ser saudável.
É exatamente o que acontece quando as pessoas começam a dar atenção para Bonnie. Deprimida pelas relações tóxicas que a internet pode promover, ela entra em um estado de isolamento e depressão. Quando as pessoas em volta percebem, Lilypad também. A partir daí, o filme retorna às suas origens, com um exército de brinquedos dispostos a salvar o dia de uma criança.
Mesmo com uma animação de ponta digna de seu tempo, o filme de Andrew Stanton brinca com a nostalgia em elementos do passado, como brinquedos de botão, madeira e todas as transições que cada geração teve desde os anos 1990. Acertando em cheio em sua nova trama, Toy Story 5 mostra que não há idade ou jeito certo de brincar, contanto que todo mundo se divirta. Assim, o filme mostra sua evolução e prova que ainda há muito o que contar com esses personagens.
Toy Story 5
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