Foto de Tolkien

Créditos da imagem: Tolkien/Fox/Divulgação

Filmes

Crítica

Tolkien

Cinebiografia despretensiosa conta a história do autor de O Senhor dos Anéis

Camila Sousa
20.05.2019
15h31

Há um certo encantamento ao conhecer a história de grandes gênios. Como público, ficamos curiosos para “entrar na cabeça” de grandes criadores de histórias e artistas, e é esse fascínio que justifica a produção de Tolkien, cinebiografia do autor de O Senhor dos Anéis dirigida pelo finlandês Dome Karukoski. Só que o mais curioso deste filme é como ele ressalta que a genialidade de Tolkien não vêm de grandes acontecimentos, mas sim de momentos singelos e comuns da vida.

Como era de se esperar, o filme passa rapidamente pela infância do autor, guardando mais tempo de tela para seu desenvolvimento na juventude. Apesar disso, fica claro como o jovem John Ronald não gostou de deixar sua casa no campo para viver com a mãe e o irmão na cidade grande. O ambiente frio e cheio de concreto o intimida e o faz sentir falta da liberdade de estar no meio das árvores. Mabel Tolkien, interpretada por Laura Donnelly, teve uma grande importância no desenvolvimento da criatividade do filho, contando-lhe histórias e criando um ambiente de magia para deixar de lado, ainda que por pouco tempo, os problemas financeiros da família.

Se tal separação entre o campo e a cidade se tornou um trauma para o jovem Tolkien, o segundo momento a contribuir com isso é a morte de sua mãe. Agora completamente órfão ao lado do irmão, ele encontra abrigo na casa de uma tutora e tem seus estudos e futuros coordenados por um padre amigo da família. Como dito no começo deste texto, a vida do autor não teve momentos grandiosos, mas cada detalhe ajuda a explicar temáticas presentes em suas obras como, por exemplo, a crítica ao desenvolvimento industrial exagerado, ou o conceito de “lar” no Condado, algo que John Ronald perdeu ainda muito novo.

É durante o período da juventude que Tolkien faz dois laços que mudariam para sempre sua vida. Ele conhece Edith Bratt (vivida por Lily Collins) e constrói sua própria sociedade de leitura, formada também por Robert Gilson, Geoffrey Smith e Christopher Wiseman. Por um lado, Edith faz Tolkien encontrar o amor e entender todas as dificuldades que chegam com ele; por outro, a sociedade formada pelos quatro amigos lhe ensina sobre lealdade e exemplifica muito bem os sonhos de uma geração que foram interrompidos pela primeira guerra. Esse é o grande ponto de virada e o clímax do filme. Tolkien e seus três amigos são convocados para a Primeira Guerra Mundial, conhecida como a “guerra das trincheiras” e uma das mais sangrentas já vistas pela humanidade.

Nesta época, Tolkien já estudava em Oxford e seu sonho de se casar com Edith parecia distante, já que ele precisou deixá-la para estudar e ela agora estava noiva. A guerra serve para unir o casal, mas também faz o jovem escritor perder amigos. Para mostrar os horrores do conflito e como isso afetou a escrita de Tolkien, o filme mescla flashbacks dos momentos de horror vistos por ele - em certo momento, por exemplo, ele não tem escolha a não ser descansar em cima de vários corpos - com momentos do presente. Doente com a “febre das trincheiras”, Tolkien volta para a casa traumatizado e é só quando consegue lidar com isso que ele escreve as primeiras linhas do que viria a se tornar a história da Terra Média, com a ajuda de idiomas inteiros que ele tinha criado na época da universidade.

Para os fãs, há momentos célebres, como quando o idioma dos anões aparece pela primeira vez em algumas anotações, ou quando Nicholas Hoult fuma um cachimbo sentado em uma cadeira de balanço, como fotos clássicas de Tolkien mostram que ele gostava de fazer. Mas acima de tudo isso, Tolkien é um filme simples e despretensioso. Seu objetivo não é mostrar grandes feitos cheios de efeitos especiais. Assim como um bom hobbit vivendo sob a colina, o escritor teve uma vida simples pontuada por grandes perdas e a forma que ele encontrou de lidar com isso é que traz o grande diferencial. Enquanto muitos ex-soldados sofrem de traumas terríveis e precisam de anos de terapia para se recuperar, Tolkien encontrou na escrita um modo de colocar para fora seus grandes medos e passar a mensagem de que “até a menor das pessoas pode mudar o rumo do futuro”. Sua história, ainda que simples, vale muito a pena ser assistida.

Nota do Crítico
Ótimo