Todas as Canções de Amor

Créditos da imagem: Todas as Canções de Amor/Mar Filmes/Reprodução

Filmes

Crítica

Todas as Canções de Amor

Envolvente e sensível, filme usa grandes músicas para mostrar a perspectiva de duas mulheres sobre seus relacionamentos

Mariana Canhisares
20.11.2018
14h32

Há algo de poético em se declarar para alguém quando o término é inevitável. Como se você tomasse emprestado o verso de Vinicius de Moraes e admitisse, para você e para a pessoa, que sim, foi infinito enquanto durou. Essa é a essência de Todas as Canções de Amor, novo filme da diretora Joana Mariani. Levando para as telas a história de dois casamentos em fases completamente diferentes, Mariani celebra a pieguice, bela e necessária, dos relacionamentos em uma narrativa pautada pela música.

Mudando-se para um novo apartamento, os recém-casados Ana (Marina Ruy Barbosa) e Chico (Bruno Gagliasso) encontram uma fita cassete chamada ‘Todas as Canções de Amor’, um presente de uma tal de Clarice (Luiza Mariani) para um Daniel (Julio Andrade). Embora não saibam nada sobre eles, os novos moradores tentam desvendar o que aconteceu com o casal pelas músicas da gravação. Quando menos esperam, a trilha sonora daqueles dois se torna a sua também.

Tendo as canções como fios condutores da trama, era primordial que a seleção musical fosse certeira e Maria Gadú e Mariani fazem um trabalho impecável. Reunindo grandes obras que deixam aquele sabor agridoce, surpreendentemente condizente tanto com o princípio, quanto com o fim de um amor, letras e roteiro se misturam e, juntos, constroem uma narrativa sensível e envolvente. E sem se limitar em termos de gênero. Na mesma fita que tem “Não Aprendi a Dizer Adeus”, ouve-se também “Drão”, “Codinome Beija-Flor”, “I Will Survive” e “Chorando Se Foi”.

Porém, o filme não se sustenta só pelos momentos musicais. Há no seu centro uma personagem feminina complicada e interessante, brilhantemente interpretada por Luiza Mariani. Clarice tem personalidade forte, se expressa sem medo, mesmo quando seu parceiro se esforça para não ouvi-la, e ainda assim é muito sensível. A humanidade dessa protagonista, aliada à química da atriz com Julio Andrade, dá substância para a história de amor deles. O romance tem ódio, frustração, companheirismo e tesão. Por isso, apesar das discussões às vezes parecerem coisa da bolha classe média indie, é impossível não se identificar. Quem nunca viveu um relacionamento tão intenso?

Igualmente importante é Ana, a jovem inocente que, no auge dos seus vinte anos, é pouco experiente quando o assunto é amor. A descoberta da fita abre seus olhos para entender que um casamento é mais do que o relacionamento de Pinterest que ela vive. É, muitas vezes, entrar em conflito. Marina Ruy Barbosa encarna bem a ingenuidade da personagem, ao ponto que é inevitável não sentir raiva da sua curiosidade juvenil. No entanto, esta reação tem mais raízes no roteiro do que na performance da atriz. A história dos recém-casados beira o bobo. Ana é jovem, mas já viveu um pouco, nem tudo precisa ser novidade. Os embates deles também são mais rasos e, muitas vezes, desinteressantes. Todo o furacão de emoções que há no relacionamento de Clarice e Daniel falta ao de Ana e Chico e, quando se intercala as histórias, o contraste fica ainda mais claro.

Mesmo assim, é difícil não se encantar com Todas as Canções de Amor. Trata-se de uma história profundamente humana, sob a perspectiva de duas mulheres fortes à sua maneira e com uma baita trilha sonora. Como não amar?

Nota do Crítico
Bom