Tito e os Pássaros

Créditos da imagem: Tito e os Pássaros/Bits Produções/Reprodução

Filmes

Crítica

Tito e os Pássaros

Com visual singular e uma trama encantadora, a animação nacional leva o debate da cultura do medo também para as crianças

Mariana Canhisares
21.02.2019
14h05
Atualizada em
21.02.2019
15h39
Atualizada em 21.02.2019 às 15h39

O medo paralisa. Seja da violência, do desconhecido ou do futuro, não importa. Fato é que dessa perturbação ninguém está imune, nem mesmo as crianças. Diante de um cenário em que se apavorar é cada vez mais cotidiano, a animação brasileira Tito e os Pássaros traz o debate da cultura do medo para o público infantil através de uma aventura carismática e divertida, mas sem nunca subestimar a inteligência de ninguém.

Em uma São Paulo expressionista, o filme acompanha a jornada de Tito, um menino criativo que, com a ajuda dos amigos, tenta encontrar a cura do surto, uma doença altamente contagiosa que tem transformado pessoas do mundo todo em pedra. A resposta, curiosamente, parece estar na linguagem dos pombos, os animais “livres e rejeitados” das cidades que acompanham a humanidade desde o princípio dos tempos. Enfrentando cada obstáculo, desde o poder de um apresentador fatalista até a própria tensão que envolve a situação, Tito descobre que, em tempos tão sombrios, a força das pessoas vem da união.

O tom de fábula da história aproxima das crianças uma conversa complexa mesmo para adultos. Focando na evolução de Tito como um herói sem superpoderes, mas com uma determinação inocente e inabalável, cria-se facilmente uma identificação com o público. Logo, é inevitável não torcer pela sua vitória.

Porém, para isso, a animação nunca abre mão de criar uma experiência genuína do medo para os pequenos. Na realidade, o visual e a trilha sonora dão conta de transmitir perfeitamente a apreensão e o perigo das situações, cada um à sua maneira. Enquanto os cenários representam com singularidade o medo pelas cores e pelas distorções dos ambientes, a música deixa aquela sensação de que há algo fora do lugar.

Enquanto a aventura pela cidade encanta as crianças e dá ferramentas para reflexões futuras, são os adultos que saem de fato impactados do cinema. A colaboração do protagonista com coleguinhas de personalidades tão diferentes - uma menina corajosa e confiante, um melhor amigo tímido e uma criança mimada, mas de bom coração - deixa uma mensagem clara em um período de tanta intolerância: as diferenças nos tornam melhores. Não adianta acreditar em uma máquina como a promessa da solução de todos os problemas. A parceria traz mais benefícios do que o isolamento.

Infelizmente, quase sem espaço nas salas de cinema no Brasil, assistir Tito e os Pássaros nas telonas será um privilégio para poucos. Enquanto a animação, brilhante na sua abordagem com o público infantil e no espetáculo visual que cria, é deixada de lado por aqui, lá fora ela é reconhecida em premiações e conquista o público gringo.

Nota do Crítico
Ótimo