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Crítica

Time and Water | Com imagens arrebatadoras, doc lida com morte de geleiras

Novo filme de Sara Dosa espelha mudanças na natureza da Islândia com perdas pessoais

Omelete
3 min de leitura
02.02.2026, às 14H41.
Atualizada em 02.02.2026, ÀS 14H57
Time and Water

Créditos da imagem: National Geographic

No clímax de Time and Water, o novo documentário de Sara Dosa – que há alguns anos fez o indicado ao Oscar Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft  –, vemos um tipo de funeral que nunca havia ocorrido antes na história da humanidade. Na Islândia, o escritor e poeta Andri Snær Magnason conduz uma cerimônia fúnebre para a morte da geleira Ok, a primeira do país a perder esta classificação e passar a ser apenas uma montanha rochosa. Como parte da programação, uma placa com um dizer escrito por Magnason é fincada nas pedras: “Nós sabemos o que precisa ser feito,” ele escreveu. “Mas só vocês saberão se o fizemos.”

Essa mensagem, um alerta para gerações atuais e futuras sobre as mudanças climáticas que já estão mudando a paisagem islandesa – e imediatamente impactando sua cultura, indústria e economia – engloba os temas do filme. Narrado pelo próprio Magnason, o longa mistura imagens arrebatadoras capturadas por Dosa e sua equipe (num esforço igualmente impressionante, mas biologicamente oposto, ao das chamas de Vulcões) com arquivos da família do escritor. Como destaque estão as filmagens feitas pelos seus avós. Foi, aliás, a morte iminente deles que o levou a buscar esses arquivos. Neles, há gravações de explorações das geleiras comandadas por sua família; máquinas do tempo que nos transportam para um branco infinito que, como fica abundantemente claro em Time and Water, pode desaparecer em questão de anos.

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Espelhar a morte de seus avós com a morte da geleira permite que Magnason adicione uma camada de urgência pessoal aos acontecimentos, enxergando um paralelo a mudança na configuração de sua família e nas características mais básicas de seu país – ambos gerados justamente pela passagem do tempo. Há altos e baixos nessa abordagem. Não há como negar que algumas reflexões são, por falta de uma palavra melhor, piegas. Aqui e ali, porém, compramos a emoção. Isso é devido principalmente pelo forte uso de filmes caseiros. Se uma imagem vale mil palavras, essas gravações explicam melhor que qualquer narração o amor e carinho que transborda naquela casa.

Time and Water
National Geographic

O que não quer dizer que Magnason, como escritor, não faça um bom trabalho com a narração. Seu maior sucesso está justamente em analisar as questões mais existenciais da morte das geleiras. Tratando o filme como um trabalho de preservação, já que talvez assistir a produções como essa sejam as únicas maneiras de seus netos e bisnetos acessarem as geleiras, ele pondera o impacto do derretimento do gelo não só no meio-ambiente, mas também no entendimento dos islandeses sobre eles mesmos. Para um exemplo, basta olhar para o nome do país.

Islândia, ou Ísland no idioma original, vem de um vocábulo que provém da língua nórdica antiga, que significa "terra do gelo.” Se não houver mais gelo lá, o que isso significa para a identidade da nação e de seu povo? Time and Water faz, como vários filmes de sua índole, um trabalho melhor levantando perguntas inerentes a seus temas do que explorando possíveis respostas, mas graças ao patamar da direção de Dosa, cada uma dessas questões é ilustrada ricamente com visitas cinematográficas às geleiras. Passeamos por seus corredores, exploramos seus interiores e sobrevoamos seus picos.

Como consequência, Time and Water impede os hipotéticos de Magnason de soarem apenas, bom... como hipóteses. Há uma característica tátil, física e real para os medos e ansiedades do protagonista. Nós percebemos isso em cada gota de gelo derretido, em cada rocha escura perfurando a camada alva de neve e em cada pessoa que deixa de aparecer em suas filmagens amadoras. O rosto da Islândia, e de seu povo, está sendo alterado diante de nossos olhos.

Crítica escrita como parte de nossa cobertura do Festival de Sundance. Time and Water será lançado futuramente no Disney+.

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