Tigertail

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

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Crítica

Tigertail

Cocriador de Master of None utiliza a história da vida de seu pai para contar delicada versão asiática do sonho americano

André Zuliani
12.04.2020
10h12

Quem porventura reparar que Tigertail, novo filme original da Netflix, é uma obra escrita e dirigida por Alan Yang, cocriador de Master of None e produtor de comédias de sucesso como Parks and Recreation e The Good Place, pode se surpreender com o nível dramático que a produção que marca sua estreia como diretor de um longa-metragem atinge. Inspirado pela história do seu próprio pai, Yang reconta a história do sonho americano aos olhos de um jovem imigrante do Taiwan que buscava uma vida melhor ao chegar à tão falada América.

Para recontar a história de seu progenitor, o diretor mistura a sinceridade de sua biografia com aspectos ficcionais (inspirados nas experiências que ouviu durante toda a sua vida) e o faz com extrema sensibilidade. Yang recria uma atmosfera íntima começando pela infância do protagonista, Pin Jui, que vivia no meio das plantações de arroz da zona rural pobre de Taiwan. A história ganha aspectos ainda mais dramáticos quando passamos por sua juventude e a história de amor entre Pin e Yuan, amiga de infância que reencontrou anos depois na cidade grande. Embora o filme não atinja o domínio narrativo de suas obras televisivas, o primeiro filme de Yang tem um toque emocional através de uma linha baseada na autenticidade.

Em busca de uma vida melhor para si e sua mãe solteira, Pin (Hong-Chi Lee na versão jovem) decide aceitar a oferta de seu chefe na fábrica em que trabalha para se casar com sua filha, Zhen Zhen (Kunjue Li) e se mudar para a Nova York dos anos 70. Para isso, Pin abandona sua vida em Taiwan para poder recomeçar no Ocidente. Utilizando flashbacks, o cineasta reconta cada detalhe da vida do protagonista em seus primeiros anos nos EUA, unindo posteriormente com cenas em sua idade mais avançada – aqui vivido pelo ator Tzi Ma. Nos tempos atuais, Pin é um senhor divorciado, recluso, pai de dois e com dificuldades de relacionar com sua filha, Angela (Christine Ko).

Ao conhecermos a experiência dos primeiros anos de Pin e Zhen nos EUA, entendemos quais são as cicatrizes que marcaram a relação de ambos no futuro. Uma vida inteira criada a partir de uma mentira influencia cada aspecto de suas relações. É fácil notar quando os personagens estão felizes ou tristes, seja pela fotografia escura do pequeno apartamento no bairro do Bronx setentista ou da direção de arte minimalista que acompanha as refeições solitárias de Pin quando mais velho. Esses momentos negativos são sempre potencializados pela melancólica (porém sensível) trilha sonora de Michael Brooke, que acaba ganhando tons mais leves quando Pin reencontra um motivo para sorrir.

Se compararmos Tigertail com The Farewell, filme vencedor do Spirit Awards 2020 que também aborda o tema de imigração asiática nos EUA, o drama de Yang explora as experiências pessoais dos imigrantes, buscando detalhes internos que evocam a realidade fria pela qual passaram. Ping Jui só se reconecta com o passado – e as boas lembranças de sua vida – após usar elementos modernos para ajudá-lo em sua crise de meia-idade. Já em The Farewell, a diretora Lulu Wang usa o choque de gerações para retratar como o histórico imigrante influencia as relações de seus personagens até os dias de hoje.

Tigertail é notavelmente simples e singular. É um conto da experiência de imigrantes do Taiwan - algo pouco explorado no cinema americano - e as cicatrizes ocultas que ficam após o processo de mudança e o estabelecimento de uma vida em um mundo novo e uma cultura completamente diferente.

Nota do Crítico
Ótimo