Thor

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Crítica

Thor

Marvel Studios amplia suas fronteiras

Érico Borgo
18.04.2011
21h00
Atualizada em
02.07.2018
20h49
Atualizada em 02.07.2018 às 20h49

O Marvel Studios continua em Thor (2011) a construção de seu universo adaptado das histórias em quadrinhos nas telas. O grande diferencial do longa-metragem do Deus do Trovão, porém, em tempos em que se procura um suposto "realismo" nas histórias de super-heróis para os cinemas, é a aposta em uma aventura das mais fantasiosas - uma que começa a trazer a essa mídia alguns dos conceitos mais complexos e imaginativos do Universo Marvel.

Até Thor, as produções controladas pela Marvel nos cinemas, os dois Homem de Ferro e O Incrivel Hulk, resumiram-se às aventuras embasadas na ciência. Agora, essa ciência ganha contornos muito mais fantásticos que Raios Gama e Geradores de Arco. O público começa a ser apresentado ao outro lado do Universo Marvel, em que magia e outros planos de existência vão surgindo.

Em Thor, afinal, somos apresentados aos asgardianos, seres imortais de outra dimensão, que, ao revelarem-se aos vikings, foram confundidos com deuses, iniciando a mitologia nórdica. Thor (Chris Hemsworth) é um príncipe desse povo, um jovem impetuoso e tolo, cujas ações desencadeiam uma nova guerra contra os Gigantes do Gelo, liderados pelo Rei Laufey (Colm Feore). Banido para a Terra por seu pai, Odin (Anthony Hopkins), ele precisa aprender lições de humildade se quiser tornar-se digno de brandir novamente sua arma, o martelo Mjolnir, e com ele seu poder imortal.

Toda a construção de Asgard, a morada dos asgardianos, enche os olhos, assim como a cultura desse povo. Figurinos, o design da cidade, a iluminação e as cores, é tudo impressionante - especialmente para quem cresceu lendo as aventuras do Deus do Trovão nas histórias em quadrinhos. Asgard nunca foi tão bem retratada no papel ou fora dele.

A seleção de Hopkins como o "Pai de Todos", Odin, é igualmente acertada. O ator dá enorme peso e nobreza ao personagem. Hemsworth, por sua vez, não compromete (seu peso é outro, em massa muscular). É Tom Hiddleston, o Loki, quem tem qualidade para segurar-se ao lado do oscarizado veterano. O inglês, que já trabalhou com o diretor Kenneth Branagh na série Wallander, divide com Hopkins as melhores cenas do filme, entregando ao cineasta a qualidade "shakespeareana" que o levou a se interessar pela história.

Branagh também aproveita a natureza épica do roteiro para criar batalhas emocionantes, à altura das maiores aventuras do personagem nas páginas dos quadrinhos. O embate de Thor com o Destruidor, por exemplo, é um dos mais empolgantes já mostrados em filmes do gênero.

Os problemas de Thor começam quando a trama, escrita por J. Michael Straczynski e Mark Protosevich, sai do plano de Asgard em direção à Terra. A necessidade de tornar a trama mais palatável ao grande público obriga o roteiro a martelar relacionamentos e situações mais próximas da realidade do espectador. Entra em cena então o núcleo formado por Natalie Portman (Jane Foster), Stellan Skarsgård (Dr. Selvig) e Kat Dennings (Darcy, um forçadíssimo alívio cômico), que servem como a âncora de Thor em nosso mundo. É fato que Natalie Portman é adorável... mas que uma noite de conversa fiada ao lado da fogueira baste para que Thor se apaixone e torne-se um protetor jurado de nosso planeta, à serviço de suas forças governamentais, é mais difícil de acreditar do que um mundo povoado por vikings imortais.

É um vício de roteiro difícil de relevar, por mais que o lado fã fale mais alto e vibre a cada referência e easter egg do Universo Marvel - do outdoor de "Journey Into Mistery" à participação de Jeremy Renner como Gavião Arqueiro, passando pela menção a Bruce Banner e a cena pós-créditos que deixa tudo pronto para o filme d´Os Vingadores. Apoiar-se em Shakespeare teria bastado. Aliás, basta há séculos.

Igualmente estranha é a opção de Branagh de filmar quase tudo no "ângulo holandês". Em linguagem cinematográfica, a inclinação da linha do horizonte é usada para causar desequilibrio e sensação de deslocamento. Mas quando o recurso é usado em excesso, o resultado em certos momentos beira a comicidade. Essa estética, combinada ao 3D, que pouco acrescenta ao filme, tira muito do mérito de Thor.

De qualquer maneira, por ampliar nas telas os limites do Universo Marvel para além da ciência, por deixar de lado o realismo e manter a diversão como foco e por abrir caminho para outras ideias (novamente, fique até o final dos créditos), a "Jornada aos Mistérios" de Thor é obrigatória aos fãs.

Nota do Crítico
Bom