The Uprising é tão vazio quanto as suas cenas de batalha antes do CGI
Com Andrew Garfield como proto-Robin Hood, longa de Paul Greengrass tem dramaturgia patética
Créditos da imagem: Andrew Garfield em The Uprising (Reprodução)
Na marca de 15 minutos de The Uprising, novo filme de Paul Greengrass, o protagonista Ploughman (Andrew Garfield) já inspirou os seus colegas de aldeia – e além – a se levantarem contra o rei da Inglaterra, e uma marcha de milhões em direção à cidade de Londres já está prestes a começar. Para um longa que excede duas horas de duração, pode parecer um pouco apressado… e eu bem gostaria de dizer que não é essa a sensação quando se assiste ao filme de fato, mas é.
Com roteiro também assinado por Greengrass, The Uprising tem a profundidade dramática da folha de papel em que seu texto foi impresso. O personagem Ploughman, mesmo, nunca se torna mais do que o seu próprio nome indica – como muitos da época em que o filme se passa (o século XIV, para ser exato), ele é batizado a partir de sua profissão, e o filme não faz questão de fazê-lo muito mais do que isso. Sim, ele é assombrado pela família que pereceu durante a pandemia de peste bubônica que matou metade da população do país, e está vagamente revoltado com seus longos dias de trabalho que não dão nenhum fruto diante dos impostos reais e do regime de servitude ao qual está preso… mas essas são características mais de massa do que de indivíduo.
Talvez a ideia aqui seja essa mesmo: criar um personagem central que represente as agruras de toda a população que ele lidera, mas no fim das contas ficamos com uma jornada principal tão inespecífica que deixa de significar qualquer coisa além das platitudes mais gerais sobre opressão e revolta. Ainda mais quando Ploughman aparece em The Uprising ao lado de figuras reais, como o padre John Ball (Jamie Bell) e o veterano de guerra Wat Tyler (Cosmo Jarvis), que comandaram a histórica Revolta dos Camponeses de 1381, que chegou muito perto de transformar o status quo da época.
Greengrass transforma essa história, ainda inédita nas telas e alarmantemente atual – uma população se revoltando contra os chefes de um sistema exploratório, logo depois de uma pandemia devastadora: onde será que já vi isso antes? –, em um épico tão vazio de significado, pesquisa e insight que é impressionante que o cineasta tenha conseguido preencher mais de 120 minutos com ele. Mas aí ele tem a “ajuda” providencial de gente como o diretor de fotografia Pål Ulvik Rokseth (A Última Casa) e do montador William Goldenberg (A Hora Mais Escura), que incompreensivelmente dão espaço no longa a várias tomadas de drone horrorosas nas quais multidões de CGI caminham na direção de uma massa urbana acinzentada no horizonte, que o filme nos diz ter alguma importância.
E é uma pena que The Uprising seja tão completamente entorpecente, como cinema. O que não faltam aqui são ideias subversivas, que merecem espaço e tratamento de gala em uma produção milionária de Hollywood – mesmo as concessões bizarras a Robin Hood (a Revolta dos Camponeses é apontada por alguns historiadores como a origem do mito) sugerem algo interessante, ao trazer uma versão do personagem que seja genuinamente anti-autoridade para a tela. Um Robin Hood onde a solução não é trocar de rei, ou apoiar um rei benevolente, mas viver sem um.
Como Greengrass e seu asseclas o realizaram, no entanto, The Uprising dificilmente vai passar mensagem alguma a alguém. Raros serão, de fato, aqueles que chegarão ao final sem cair no sono.
*The Uprising foi exibido no Festival do Rio 2026. Ainda não há previsão de lançamento no circuito comercial brasileiro.
The Uprising
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