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Crítica

The Square – A Arte da Discórdia | Crítica

Vencedor de Cannes aplica uma mão de verniz na velha misantropia do cinema de arte europeu

Marcelo Hessel
04.01.2018
15h59

Se terminar celebrado no Oscar 2018 depois de ter ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes, The Square - A Arte da Discórdia se sacramentará como um filme muito emblemático do seu tempo, na sua capacidade de transformar num grande bolo estomacal todas as variações da cultura do constrangimento que fizeram de 2017 um ano especial para linchadores, palestrinhas, lacradores e senhores da razão em geral.

O roteirista e diretor sueco Ruben Östlund (Força Maior) parte do mundo das artes plásticas para falar das pequenas e grandes hipocrisias que marcam nossas dinâmicas afetivas e políticas. Na trama, Christian (Claes Bang), diretor de um museu de arte moderna em Estocolmo, organiza uma nova exposição contundente, e a trama se desenrola em vaivéns de núcleos de personagens até a abertura da mostra. Acompanhamos Christian em situações do dia a dia, e sua figura alta, de queixo quadrado, o emblema do bem vestido liberal primeiromundista da avançada sociedade sueca, é desconstruída ao longo de The Square.

Pelo menos é o que Östlund ambiciona... A espiral de caos que envolve o protagonista está longe de tragá-lo numa desconstrução corajosa ou minimamente visual. Com exceção de uns arranhões e uns momentos de vergonha alheia, Christian se mantém espectador confortável dos eventos que supostamente o transformam, porque The Square não consegue ir além da monotonia com que apresenta variações em esquete de uma mesma situação de desconforto envolvendo privilégios socioeconômicos. Quando o filme já não encontra desdobramentos satisfatórios para o arco de Christian (as relações que ele mantém com o empregado, com a americana, não ganham tração de fato), surge de repente uma família que não conhecíamos - e Östlund parte francamente para a solução sentimentalista e professoral, à falta de uma dramaturgia mais robusta.

A discussão empoeirada sobre arte - "o que é arte?" é o grande letreiro luminoso que segue aceso em The Square como um aviso de saída de emergência - aparece para dar um verniz intelectual ao drama de humor negro. É um verniz muito parecido com o flerte que o grego Yorgos Lanthimos faz com o cinema de gênero para emplacar em festivais e listas sacadinhas de melhores do ano. Lanthimos e Östlund são os dois garotos de ouro dessa nova geração da misantropia no cinema, que assume o bastão de Michael Haneke e Lars von Trier no gosto da crítica e das premiações, tendo a seu lado a disposição popular generalizada destes anos 2010 para a falta de empatia.

Haneke e Von Trier, porém, em algum momento, testaram os limites das suas próprias narrativas com um discurso mais virulento, que questiona a própria cumplicidade do espectador. (Toda a influência que os dois têm sobre a geração de Östlund vem primeiro dessa virulência, estamos todos vivendo sob o sequestro perpétuo de Funny Games.) O que o sueco herda, agora, é só o gosto pela humilhação, e o ponto alto de The Square não seria outro senão o jantar com a performance de Terry Notary, em que o público pode se sentir confortável diante desse grande ator de captura de movimento enquanto ele assedia europeus belos e ricos.

Nota do Crítico
Ruim