The Sisters Brothers

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Crítica

The Sisters Brothers

A odisseia do homem sensível na terra dos brutos

Natália Bridi
04.10.2018
13h20
Atualizada em
04.10.2018
14h45
Atualizada em 04.10.2018 às 14h45

No Velho Oeste, escovar os dentes é o primeiro passo à civilização. Enquanto Eli Sisters (John C. Reilly) cuida da sua higiene bucal e sonha em ser mais do que um assassino de aluguel, seu irmão Charlie (Joaquin Phoenix) não vê além de mortes e bebedeiras. No sorriso dos dois, The Sisters Brothers encontra a diferença entre perspectiva e mera sobrevivência.

Com base no livro de Patrick DeWitt, o diretor Jacques Audiard, que também assina o roteiro ao lado de Thomas Bidegain, usa os arquétipos do western para estudar a sensibilidade masculina em um meio primitivo. A narrativa segue os dois irmãos assassinos, o detetive John Morris (Jake Gyllenhaal) e o alvo dos três, o químico Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed), para medir a dificuldade de ser mais do que bruto e implacável em um mundo sem tempo para reflexão. A missão, ordenada pelo poderoso Comodoro (Rutger Hauer), é corrompida conforme os caminhos desses indivíduos se cruzam e o vislumbre do progresso trazido pela Corrida do Ouro na Califórnia supera antigas estruturas de poder.

Audiard escreve pelas linhas do faroeste clássico, ao mesmo tempo em que se mantém dentro de uma estrutura literária, com pequenos capítulos que se somam na construção dos personagens. A história dos irmãos Sisters segue o raciocínio do “lá e de volta outra vez”, mais interessado no efeito da jornada do que nos acontecimentos em si. Ainda assim, nada é sem propósito, com o menor dos detalhes servindo aos personagens, seja uma escova de dentes, um sonho perturbador ou um diário de escrita rebuscada. Anedótico na superfície, cada elemento surpreende pela perspicácia.

São intenções calculadas que não se limitam ao aspecto teórico. O elenco põe essas ideias em prática para criar um retrato íntegro e fidedigno. C. Reilly faz de Eli o mais carismático dos homens comuns, sufocado pelo ideal de masculinidade representado por seu irmão. Já Phoenix não limita Charlie a ser um cowboy destemido e pouco articulado, atuado sobre uma camada de constante desespero. Conforme os dois se transformam, as atuações evoluem e os personagens crescem. A sintonia e a entrega do grupo, incluindo Gyllenhaal e Ahmed, dá coerência para uma narrativa ritmada por uma constante metamorfose. Ora é ríspida, ora cômica, ora dramática, ora melancólica, sempre autêntica.

O Velho Oeste pode ser selvagem, mas o homem não precisa ser. The Sisters Brothers eleva a importância do raciocínio - filosófico, científico ou social - e do afeto - fraternal, maternal ou romântico - em detrimento da força bruta. O faz com personagens humanos e completos, com humor e sensibilidade e sublinha uma conclusão que já foi óbvia, mas de uns tempos para cá voltou a se tornar complexa: para evoluir, é preciso pensar.

Nota do Crítico
Excelente!