The Old Guard

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

The Old Guard

Adaptação da HQ coloca o público no lugar dos heróis: vivendo repetições sem recompensa

Marcelo Hessel
03.07.2020
12h00

Se a gente precisava de mais evidências de que fidelidade na adaptação não é garantia de qualidade, The Old Guard está aí para mostrar. O quadrinista Greg Rucka, famoso por suas histórias da DC, especialmente com Mulher-Maravilha, e que já tinha visto a sua graphic novel Whiteout virar um filme abaixo da média, assumiu pela primeira vez para si a responsabilidade de escrever o roteiro de uma adaptação ao cinema, no caso da minissérie que ele criou na Image Comics com o desenhista argentino Leandro Fernandez.

Com algumas modificações, o que se vê no filme da Netflix corresponde, batida por batida, com o primeiro arco da HQ. Nela, acompanhamos um grupo de guerreiros que não morrem, e que era após era assistiram às guerras dos homens até chegar nos dias de hoje, quando eles agem como um esquadrão de operações especiais tentando fazer o bem no mundo. Charlize Theron lidera o elenco internacionalizado, cujas etnias e origens correspondem aos seus personagens na minissérie, desde os cavaleiros rivais das Cruzadas até o sobrevivente das guerras napoleônicas.

No centro de The Old Guard está a desilusão com a humanidade, expressa no comportamento frio e calculado dos personagens e na banalização da violência, que no desenho de Fernandez se torna um grande pastiche tarantinesco nas cenas de tiroteio. A HQ não é um primor de construção de mitologia nem de personagens mas essa relação da violência com sua manifestação caricatural consegue dar à leitura um caráter particular, uma "voz" que seja. Na adaptação ao cinema, a diretora Gina Prince-Bythewood (conhecida pelo ótimo Nos Bastidores da Fama) mantém a frieza, mantém a violência, e o que se percebe é que a transferência do espírito da HQ não vem automaticamente.

The Old Guard é uma demonstração de como mídias diferentes exigem soluções distintas. Em movimento, em três dimensões, com texturas, a violência impressa na tela é muito diferente daquela vista no papel. Se há em algum momento do filme um esforço de recontextualizar o registro violento, denunciá-lo, isso fica absolutamente diluído na maneira padronizada com que The Old Guard emula uma dezena de outros filmes de ação militarizados. É uma história sobre a banalização do ciclo sem fim da violência que acaba contada de forma banalizada.

Quando o filme se coloca nessa posição, refém de si mesmo e do discurso que supostamente problematiza, não há muito mais o que fazer. Gina Prince-Bythewood não é um Paul Verhoeven, que pegou e virou Tropas Estelares de Frank Herbert do avesso para dar um novo sentido à violência. Então o que temos em The Old Guard é uma experiência difícil de atravessar, forçados que somos a simpatizar com personagens que são marrentos só pelo fato de serem marrentos, como todo militar ultratreinado da ficção. O backstory na HQ que poderia nos aproximar da personagem de Theron (sobre um amor interracial no passado, na Austrália) é meio que substituído por um interesse amoroso lésbico que, no filme, serve mais para introduzir um potencial gancho de continuação. Theron se ressente do pouco material para trabalhar e entrega uma atuação impenetrável.

Parte da responsabilidade fica, claro, com Greg Rucka, cujo roteiro combina Highlander com Sense8 mas não tem o charme do primeiro nem a espirituosidade globalizante do segundo. A título de uma construção de um universo histórico e geopolítico, seu texto se contenta com clichês do imaginário americano (o máximo de exotismo mundial é voltar sempre às casinhas de barro do Afeganistão) e com piadinhas de namedroping (é muito sintomático que haja a graça com o fato de Andy ter transado com Auguste Rodin mas não há menção às transas atuais, que humanizariam a personagem como na HQ, por vazias que fossem). Esses momentos supostamente deveriam levar o espectador por uma viagem pela história e suas figuras famosas marcantes, mas na verdade são uma listagem pedante de referências que só evidenciam a preguiça do roteiro em buscar qualquer especificidade.

Então o resultado é esse filme que, incapaz de articular um olhar sobre a violência ou um discurso sobre a história que não seja só um panorama de flashbacks, refugia-se em correrias e lutas e tiroteios sem que essa ação toda represente um mínimo acúmulo de vivências. Talvez esteja aí o saldo mais contundente do filme, que depois de duas horas transporta o público para o extenuante ofício da Velha Guarda e o submete também a uma experiência de repetições sem recompensa.

Nota do Crítico
Regular