Filmes

Crítica

The Nightingale

Diretora de Babadook dá passo ambicioso em faroeste sádico

Marcelo Hessel
31.01.2019
17h05
Atualizada em
31.01.2019
17h19
Atualizada em 31.01.2019 às 17h19

Depois de despontar com um terror doméstico, Babadook, a diretora Jennifer Kent vai pra chave oposta em seu segundo longa, The Nightingale. Aisling Franciosi e Sam Claflin protagonizam o misto de terror e faroeste, que em comum com Babadook tem apenas a claustrofobia - presente aqui na escolha da janela de projeção 1,33:1, mais quadrada que o retângulo normal.

A trama se passa em 1825 num território ainda selvagem da colônia inglesa na Austrália. A rouxinol do título, a irlandesa Clare (Franciosi, em atuação angustiada mas não exatamente marcante), que canta para agradar os militares britânicos e para aliviar seus próprios fardos, é violentada constantemente por um tenente que espera há anos uma transferência para a cidade. Quando o marido e o bebê de Clare são mortos, ela se junta relutantemente com um guia aborígene para se vingar do tenente.

A escolha de um galã como Claflin para interpretar o tenente tem impacto imediato: ele surge logo em cena num misto de graça e vilania, o que marginaliza Clare. A ideia de Kent parece ser, antes de mais nada, ostracizar Clare (o que a janela também demarca) e submetê-la às maiores humilhações para que sua eventual redenção seja de fato transcendental. Uma vez que Clare é nosso canal com o filme desde o primeiro close-up na menina, que abre o filme com o rosto dela entre as sombras, somos carregados na provação também.

O resultado é brutal. Kent investe em cansar o espectador por 2h20 com o sadismo: cada demonstração de violência tende a ser recebida com repulsa pelo público, mas ao mesmo tempo em que o filme testa nossa tolerância, a violência se banaliza e frequentemente The Nightingale emenda uma cena forte com um alívio cômico. A ideia - vai ficando mais claro - é menos anestesiar o espectador e mais demonstrar como esses atos de violência se banalizam naturalmente pela repetição, pela normalização. (Ter um galã como Claflin no papel do vilão talvez seja um movimento consciente nesse sentido, o de subverter a violência.)

Isso parece mais forte na teoria que na prática. É uma operação arriscada e que gera interesse, mas que sozinha não justifica o filme - nela está tanto a força quanto a vulnerabilidade de The Nightingale. Na verdade, Lars von Trier faz algo parecido com A Casa que Jack Construiu e o dinamarquês parece bem mais investido na provocação e na repulsa do que Kent. Neste faroeste realista, o tom soa desproporcional e deslocado.

De qualquer forma, neste seu segundo longa, Jennifer Kent aposta alto, faz uma espécie de Os Imperdoáveis com a justificativa de chamar atenção para a tragédia e a causa aborígene na sua Austrália natal, e seu filme se abre francamente a julgamentos por conta desse risco (presente no escopo ambicioso, no tratamento da violência). Tende a ser um filme divisivo, mas talvez essa seja uma posição que uma cineasta em início de carreira ocupa bem, para evitar zonas precoces de conforto.

Nota do Crítico
Regular