Foto de The Man Who Killed Don Quixote

Créditos da imagem: The Man Who Killed Don Quixote/Tornasol Films/Divulgação

Filmes

Crítica

The Man Who Killed Don Quixote

Terry Gilliam brinca com conceitos do cinema e faz um paralelo com sua própria jornada

Camila Sousa
10.01.2019
15h22

A produção de The Man Who Killed Don Quixote foi uma das mais conturbadas da história do cinema. Terry Gilliam lutou durante décadas contra problemas de produção, orçamento e até mesmo elementos da natureza que destruíram o set de filmagens. Logo, quando a produção foi finalmente finalizada e exibida em festivais, ela chegou cheia de expectativas, que Gilliam não poderia ter preenchido de forma melhor.

É difícil imaginar como era The Man Who Killed Don Quixote antes de todos esses problemas, porque o diretor reflete na tela parte de sua jornada. Na trama, o cineasta Toby (Adam Driver) está fazendo seu próprio filme de Dom Quixote, quando redescobre uma fita da época da faculdade, quando juntou alguns atores amadores e filmou uma versão da história. Ele fica obcecado em encontrar o elenco novamente e percebe que sua obsessão também tomou conta deles.

No meio disso, há muita brincadeira com vários conceitos do cinema: o diretor que é um gênio, porém muito excêntrico; o executivo do estúdio que dá sinal verde para tudo, desde que o lucro seja garantido, etc. Na juventude, Toby era um cineasta inexperiente, cuja maior vontade ao fazer um filme era se conectar com pessoas. Ele tinha um sonho e ficou feliz ao unir um grupo que sonhou junto com ele. No presente, porém, o diretor vive cheio de mimos no set e sua relação com os atores é fria e apenas profissional. Nesse ponto, Gilliam parece colocar muito da própria experiência em forma de crítica. É incrível se tornar um diretor de sucesso e ser “reconhecido”, mas a indústria que entrega fama também é capaz de corromper o mais sonhador dos profissionais.

Se esse paralelo entre Gilliam e Toby já entrega muita metalinguagem, isso alcança outro nível quando o diretor mostra um terceiro paralelo: a história do próprio Dom Quixote. Jonathan Pryce, que atuou no filme amador de Toby e acredita ser de fato o personagem de Miguel de Cervantes, muitas vezes define sua jornada como um fardo. Ele precisa encarar os temíveis moinhos de vento e ficar atento com a chegada dos gigantes. Essa é sua missão e ninguém mais pode concluí-la. Assim também é a realidade de Toby. Após descobrir que o senhor simples que morava na aldeia perdeu a razão por fazer seu filme, o agora diretor renomado acredita que apenas ele pode consertar isso. Incrivelmente, essa também foi a jornada de Gilliam: apenas ele poderia carregar o fardo de finalizar The Man Who Killed Don Quixote.

No caminho para mostrar isso ao público, o longa embarca em um questionamento sobre o que é real e o que é ficção. Absorto pela ideia de Dom Quixote, Toby começa sua aventura e muitas vezes não sabe se o que vê existe realmente ou não. Sua cabeça inventa personagens e vilões, e ele termina se tornando uma versão do próprio Quixote. É fácil imaginar que isso tenha acontecido com Gilliam. Entre décadas vendo seu projeto enfrentar os mais diversos problemas, não seria surpresa se ele também tiver começado a temer pelos gigantes por aí. Até mesmo o título carrega isso. Se Terry Gilliam antes queria adaptar Dom Quixote, ele terminou como aquele que o matou.

Acima de tudo, The Man Who Killed Don Quixote fala sobre erros e como é fácil viver assombrado por eles. Toby se tornou vaidoso e olhar para os problemas do passado o fez questionar qual é o papel que ele quer ter na própria história. Será ele o vilão pelos erros que cometeu? Ou ainda pode ter a redenção de um herói? Em seu caminho para finalizar este filme, Gilliam passou por muitas personas, mas ao transmitir toda essa angústia e luta em pouco mais de duas horas, ele definitivamente conseguiu uma vitória diante dos moinhos de vento.

Nota do Crítico
Excelente!