The Dirt

Créditos da imagem: Netflix/divulgação

Filmes

Crítica

The Dirt

Repetindo fórmulas e clichês, cinebiografia do Mötley Crüe ganha pelo elenco e carisma

Julia Sabbaga
22.03.2019
15h48

Foram anos até que a cinebiografia do Mötley Crüe conseguisse chegar às telas. A jornada do livro – publicado em 2001 – até o filme lançado esta semana, passou por mudanças de direção e estúdio até ser salvo pela Netflix. Mas de 2001 a 2019 muita coisa mudou, e as histórias do passado de uma das bandas mais polêmicas do rock talvez sejam pesadas demais para serem contada hoje em dia. O filme, no entanto, conseguiu a proeza de retratar os absurdos como simples malandragens, e focou mais no lado animal de sexo, drogas e rock 'n roll do que em seu lado propriamente abusivo. Por isso, The Dirt chega como um produto tão caricato quanto a própria banda, mas que se salva pelo carisma de seus personagens e um ótimo elenco.

Apropriadamente dirigido por Jeff Tremaine, que comandou os filmes de Jackass, The Dirt conta a história dos quatro membros do Mötley Crüe. O livro foi escrito a partir de relatos de cada um dos integrantes e o filme transmite isso muito bem, alternando narrativas e pontos de vista. Nele, Mick Mars (Iwan Rheon), Tommy Lee (Colson Baker, ou Machine Gun Kelly), Vince Neil (Daniel Webber) e Nikki Sixx (Douglas Booth) contam a história da formação da banda, o eventual hiato e a reunião, passando pelos altos e baixos tradicionais das cinebiografias musicais.

Assim como a enorme maioria dos filmes deste gênero, The Dirt omite e edita grandes partes da carreira do Mötley Crüe, mas ganha pontos imediatamente quando reserva um momento para justificar isso. Relembrando a contratação do gerente da banda, Doc McGhee, no meio de uma festa, o filme pausa para admitir que claramente não foi assim que as coisas aconteceram, e ainda, reconhecer a ausência de Doug Thaler, parceiro de Doc. "Doug era um cara legal e é meio chato que ele foi cortado desse filme, mas essa versão é tão boa quanto qualquer outra". A frase dita por Rheon, no papel de Mick Mars, é quase perfeita para entender The Dirt. Cada um dos membros do Mötley Crüe poderia ser a estrela de seu próprio filme, que explorasse as quedas e aprendizados de cada uma de suas carreiras. Mas como o produto de uma história arriscada demais para ser contada hoje em dia, esse filme talvez seja o melhor que temos para hoje. 

Cinematograficamente, The Dirt é uma bagunça. O longa não escolhe um estilo e não permanece muito tempo em um formato estético único, inclusive nos momentos aleatórios em que conversa com o público, mas as pirotecnias do Mötley Crüe escondem a falta de foco. O que brilha realmente em The Dirt são as performances. Os quatro protagonistas vestem a persona de cada um dos integrantes, e conseguem complementar um ao outro muito bem. O Sixx de Booth pode ter ficado um pouco caricato demais, mas Rheon, Baker e Webber se encaixaram em seus papeis perfeitamente, e a mistura de risos e lágrimas que cada um entrega é admirável. Parte do mérito está nos personagens; The Dirt conseguiu capturar a essência das figuras da banda, e harmonizar as personalidades de modo que, por menos tempo que cada um tenha na tela, nenhum deles soa superficial.

Seria ingênuo pensar que um filme sobre o Mötley Crüe não seria machista e polêmico, e ainda considerando os obstáculos da produção, The Dirt é um filme que tinha tudo pra dar errado. São inúmeras histórias de comportamento violento e abusivo que o filme encaixa como meras passagens da vida em turnê (sem contar as histórias mais pesadas que a adaptação para às telas deixou de lado). Talvez por isso Jeff Tremaine tenha seguido uma linha tão tradicional de narrativa. Mas sustentado por performances surpreendentes, e entregando momentos realmente divertidos, The Dirt acabou carismático. Provavelmente escondendo muito do que havia nos bastidores – afinal, talvez o mundo de hoje não seja o melhor contexto para o Mötley Crüe recontar suas histórias – a cinebiografia é simples e divertida, e apesar de suas pesadas sujeiras, acaba como um leve passatempo. 

Nota do Crítico
Bom