The Ballad Of Buster Scruggs

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

The Ballad Of Buster Scruggs

Coletânea faroeste dos Coen é amostra do tradicional humor sombrio da dupla, mas perde por não chegar aos cinemas

Julia Sabbaga
20.11.2018
18h16

Apesar dos rumores, The Ballad Of Buster Scruggs, novo filme de Joel e Ethan Coen, nunca chegou a ser considerado como uma série de TV. A coletânea faroeste sobre a fronteira americana gerou especulações de um formato alternativo no momento em que foi levado para a Netflix, mas a ideia certamente não teria o mesmo efeito senão fosse entregue como um longa. A antologia, formada por seis histórias escritas e dirigidas pela dupla, é um passeio de ótimos altos e alguns baixos pelos temas já tradicionais dos diretores. De modo conciso e impiedoso, torna-se único por tratar, cada um de um jeito, de uma perspectiva única da morte. Como um compilado, The Ballad Of Buster Scruggs serve como pequenas amostras do poder dos Coen em cada faceta; em comédia, obscuridade, musicalidade, atuação, roteiro e fotografia.

Fazendo uso do Velho Oeste como o cenário perfeito para retratar os lados mais animais do ser humano, o filme começa e termina em pontos altos. O primeiro conto, que leva o nome do filme, dá o pontapé com muito humor e música, elementos presentes durante todo o longa, mas não com tanta intensidade. Nele, Tim Blake Nelson vive o personagem principal, um assassino frio e hilário, que demonstra seus talentos com a pistola de maneiras criativas. O ator, que já figurou nos Coen em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, encontra seu papel perfeito como o protagonista, fazendo uso de seu estilo fanfarrão sem exageros e com muito estilo. O primeiro relato é totalmente diferente dos posteriores de uma maneira bem simples: seu otimismo em relação à morte. A partir daí, a positividade das conclusões só diminui.

A sequência “Near Algodones”, com James Franco, também foca na comédia, mas acaba sem grande recompensa apesar do bom-humor, e abre portas para os contos mais melancólicos do longa. Nas narrativas seguintes, a morte é explorada como resultado não apenas das ações imprudentes de criminosos do Velho Oeste – caso das duas primeiras aventuras – mas como consequência de isolamento, loucura ou simples azar. A representação disso chega em Buster Scruggs de modos diferentes, e por vezes arrastados. O maior exemplo é a terceira história, em que o personagem Liam Neeson é um viajante que leva uma peça itinerante estrelada por um homem só, sem braços e sem pernas. Nela, os irmãos Coen entregam sua resolução mais brutal, mas não por isso, menos vagarosa. “The Meal Ticket” acaba brilhando, principalmente, por um elemento inusitado: a atuação de Harry Melling, conhecido até hoje, basicamente, como o primo maléfico do Harry Potter, Duda Durlsey.

A sequência, “All Gold Canyon”, a mais pura e poética das narrativas, mostra uma busca incansável por ouro. A relação da natureza com o homem, vivido por Tom Waits, e a ganância tomam papel central, e a trama tira proveito de uma fotografia de tirar o fôlego. O resultado é que esse não apenas é um dos melhores enredos de Buster Scruggs, como é o que deixa mais claro a falta que a tela de cinema faz. “The Girl Who Got Rattled”, penúltimo capítulo, conta a história de desesperança de uma mulher sozinha em uma caravana pelo Oeste. As complicações nas relações entre os membros da caravana, complementados pela figura de um cachorro irritante e um futuro incerto, acabam tornando esta a trama mais complexa de Buster Scruggs, que valeria, facilmente, ser explorada sozinha em um longa isolado dos diretores.

The Ballad Of Buster Scruggs acaba com a sua história mais simples, em que cinco viajantes conversam em uma carruagem com destino comum. O conto é um ponto alto por trazer a maior densidade de diálogos da antologia, um dos principais valores da obra dos Coen. A troca de olhares, discursos sem muito objetivo e a personalidades de cada um dos envolvidos, encobertos por uma misticidade enigmática do destino e a peculiaridade de dois cavalheiros em particular, acaba sintetizando outro elemento sempre presente em suas obras: o macabro. “The Mortal Remains” fecha o tema fúnebre de Buster Scruggs em um belo auge.

Segundo os próprios diretores, havia pouca esperança em lançar The Ballad Of Buster Scruggs nos cinemas. De acordo com eles, estúdios não têm mais interesse em pequenas histórias como estas, sem grandes perspectivas financeiras, e por isso a Netflix se provou a casa ideal para a antologia. A ideia de que o longa não seria lançado se não fosse pela plataforma deixa um sentimento de alívio de que histórias como estas encontrarão uma maneira de chegar ao público. Ao mesmo tempo, a grandiosidade das narrativas, atuações e fotografia, perdem parte de seu impacto quando chegam na telinha. Talvez por isso, e pelos passos e durações diferentes, as narrativas The Ballad Of Buster Scruggs acabam descendo como uma singela surpresa aos fãs dos diretores, mas não saciam a ansiedade por um novo filme dos Coen.

Nota do Crítico
Ótimo