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Crítica

Tetro | Crítica

O melodrama operístico de Francis Ford Coppola

Marcelo Hessel
09.12.2010
18h45
Atualizada em
21.09.2014
14h12
Atualizada em 21.09.2014 às 14h12

No documentário francês Alguns Dias com Douglas Sirk, o diretor alemão relembra a primeira definição de melodrama que recebeu. Estava no cinema com a avó, e não entendia porque o pianista que acompanhava ao vivo um filme mudo tinha que ficar fora da tela, separado dos atores. "É que isso que você está vendo não é um drama, mas um melodrama", diz a avó.

Em Tetro (2009), Francis Ford Coppola - que, como Douglas Sirk, tende ao barroco sem medo - coloca não só o pianista para dentro do filme, mas a orquestra toda e o coro também. A noção defendida por Sirk de que o melodrama nasce do uso da música para "sentimentalizar" o que se encena (até cavalos de carrossel precisam de musica para funcionar, diz o mestre) é estendida por Coppola em Tetro, um filme onde teatro, dança e ópera se misturam em metalinguagem para comentar a história que está sendo contada.

Nada mais natural, já que estamos diante de uma família de artistas. Escritor promissor, Tetro (Vincent Gallo) se isolou na Argentina para fugir da onipresença de seu pai, um maestro famoso, regente em Nova York. Faz anos que Tetro fugiu, e seu irmão mais novo, Bennie (Alden Ehrenreich), garçom de cruzeiro, prestes a completar 18 anos, aproveita uma parada no porto de Buenos Aires para procurar seu irmão-ídolo - mas o Tetro que ele encontra não é o mesmo das suas lembranças.

Se Velha Juventude, o filme de 2008 que marcou a volta de Coppola à direção depois de uma década, já dava vazão a um volume represado de estilo, Tetro, embora mais conciso, vai mais longe no rebuscamento. A fotografia em preto e branco e Scope se alterna com cenas em cores em janela mais quadrada (1,85:1) e o jogo de sombras e espelhos - que, aliás, era uma das especialidades de Sirk - é constante.

Mas Coppola não é um exibicionista. A maioria dos seus floreios é pensada para aproveitar o espaço máximo de cada enquadramento e potencializar o drama. Se Tetro é assombrado pelas cobranças do "palco" ("só há espaço para um gênio nesta família", diz seu pai), por exemplo, Coppola transforma os vários monitores do festival literário em coro. Com isso ele povoa o quadro mais uma vez e ainda arruma uma forma inventiva de traduzir as vozes do público que exigem de Tetro a sua obra-prima.

Não parece haver, ademais, forma melhor de lidar com esse material se não com as ferramentas do melodrama. Tetro é o primeiro roteiro original de Coppola desde aquele que muitos consideram seu melhor filme, A Conversação (1974), e mais uma vez, como em Velha Juventude, o acerto de contas com as promessas frustradas no passado se faz urgente. Mas se o melancólico filme de 2008 parecia mais um testamento, na sua impossibilidade de uma segunda chance, Tetro aponta para o despertar. O pequeno filme de formação do caçula, com Bennie descobrindo as coisas boas de San Telmo e do estilo de vida machista dos latinos, habita a história maior, geracional.

Com Tetro, Coppola reafirma opções de estilo feitas ainda em início de carreira, insere-se na melhor tradição hollywoodiana do melodrama e, contra todas as expectativas, rejuvenesce a sua obra.

Tetro | Horários e cinemas

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Tetro
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Ano: 2009

País: EUA, Espanha, França

Classificação: 12 anos

Duração: 127 min

Direção: Francis Ford Coppola

Elenco: Vincent Gallo, Maribel Verdú, Klaus Maria Brandauer, Alden Ehrenreich, Silvia Pérez, Rodrigo de la Serna, Erica Rivas, Mike Amigorena, Lucas Di Conza, Adriana Mastrángelo, Leticia Brédice, Sofía Gala, Jean-François Casanovas, Carmen Maura, Francesca De Sapio, Ximena Maria Iacono, Susana Giménez, Pochi Ducasse, Nora Elisabeth Robles, Pedro Arturo Calveyra, Mariela Noemi Magenta, Marcelo Fabio Carte, Guadalupe Docampo, Juliana Giambroni

Nota do Crítico
Ótimo