Cena de Testamento (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Testamento (Reprodução)

Filmes

Crítica

Testamento abraça a rabugice cínica da geração boomer e a transforma em virtude

Denys Arcand desfila descrença charmosa no contemporâneo - e no ultrapassado

Omelete
4 min de leitura
26.06.2024, às 14H27.

Assim como absolutamente toda sátira ou comédia de costumes contemporânea, Testamento tem uma subtrama envolvendo pronomes neutros. No caso do novo longa de Denys Arcand, satirista canadense conhecido pelo premiado As Invasões Bárbaras (2003), a piada com não-binariedade envolve um residente da casa de repouso onde vive o protagonista Jean-Michel (Rémy Girard, muso de longa data do cineasta). Quando este colega anuncia que prefere uma versão diferente do nome pelo qual foi conhecide durante a vida, e pede para que se use a linguagem neutra quando se referindo a elu, Jean-Michel diz à diretora da instituição, Suzanne (Sophie Lorain), que as coisas eram mais simples quando os homens eram homens, e as mulheres eram mulheres”. Ela então questiona: E você acha que as pessoas eram mais felizes nessa época?. E ele treplica: Suponho que não. Continuamos tão infelizes quanto sempre fomos.

A habitual descrença boomer em relação às novas normas de comportamento é temperada aqui, portanto, com uma consciência tácita de que o “politicamente correto” é só mais um capítulo nas intermináveis negociações e ajustes da mesma condição humana insuplantável - e, essencialmente, miserável - na qual estamos todos presos (e presos juntos, vale dizer). Há uma aceitação implícita dos novos tempos em Testamento, uma indisposição a celebrar ou vilanizar os paradigmas que surgiram com a contemporaneidade, um entendimento de que eles mudaram, continuam mudando e sempre vão mudar. Arcand nunca vai ser o artista idoso que surpreende como campeão improvável da justiça social e da reparação da história suja da sociedade ocidental, mas prova em Testamento que em seu cinismo ainda há clareza de visão, mesmo que seja para equalizar essa história com o presente e o futuro.

É justamente aí que o filme encontra o seu charme. Na trama, Jean-Michel se vê confrontado com um protesto diante de sua casa de repouso - um grupo de ativistas exige que um mural dentro do prédio, retratando a chegada dos europeus ao Canadá e seu primeiro encontro com os povos originários do país, seja removido - enquanto se surpreende com a possibilidade de um caso de amor tardio com Suzanne. O roteiro de Arcand soletra as formas como o protagonista se vê esquecido, desprezado e ultrapassado pelos tempos com menos afetação do que o esperado, deixando os exageros cômicos para uma ou duas cenas (o momento em que Jean-Michel vai receber um prêmio literário é especialmente grosseiro) enquanto prefere uma chave melancólica mais amigável durante a maior parte de suas quase duas horas de duração.

No papel principal, Rémy Girard segue a deixa ao construir um “bom velhinho” que está em paz com o seu lugar figurante em um mundo que pertence aos jovens, mas que ainda retém o ímpeto da vida que levou. Já Suzanne é mais nova que Jean-Michel e parece refazer seus passos nas flutuações de humor - nessa toada, Sophie Lorrain trabalha brilhantemente a severidade mal contida do fim da meia-idade, o esperneio furioso antes da aceitação pacífica de uma vida “medíocre” e, com alguma sorte, pelo menos um pouco feliz. É no encontro entre os dois personagens, que meio desaguam um no outro, meio empurram um ao outro para novas direções, e meio se atraem com uma tensão inexplicável e irresistível que está no texto e no ritmo em que ele é entregue pelos atores, que Testamento encontra uma fundação de humanidade, uma concessão à possibilidade do romantismo.

Enquanto olha com curiosidade para a dissolução das barreiras de identidade que definiram os conflitos sociais de outrora, para a multiplicidade de ferramentas às quais recorremos para fingir que temos o controle de nossas próprias vidas, ou - ainda pior - do arco histórico maior da humanidade, Testamento aceita o lugar onde se encaixa com mais conforto, e também o lugar onde ele é mais útil: o de plataforma para a rabugice venenosa de um artista que sempre foi outsider, pela própria natureza da sátira, mas que se moveu mais ainda para as margens agora que o tempo o rotulou como ultrapassado. De fora para dentro, ele nos vê com um cinismo absoluto, mas gentil e até propenso ao perdão, que desarma principalmente aqueles que discordam com suas descrenças.

É um jeito tão bom de passar a “melhor idade” quanto eu poderia imaginar. E, seja este o último filme de Arcand ou não, é uma bela despedida.

Nota do Crítico
Ótimo
Testamento
Testament
Testamento
Testament

Ano: 2023

País: Canadá

Duração: 115 min

Direção: Denys Arcand

Roteiro: Denys Arcand

Elenco: Rémy Girard, Yves Jacques, Marie-Mai Bouchard, Sophie Lorain

Onde assistir:
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