Teenage Sex and Death at Camp Miasma é uma fascinante carta de amor aos slashers
Jane Schoenbrun examina, recria, homenageia e questiona o gênero de terror em seu novo filme
Créditos da imagem: MUBI
Depois de encarar a internet em We’re All Going to the World’s Fair e a televisão em Eu Vi o Brilho da TV, Jane Schoenbrun voltou os olhos para o cinema, e para ser mais específico, o cinema de terror do Século 20. Terceira parte do que essencialmente virou uma trilogia sobre nosso consumo midiático e a ressignificação de conteúdo, Teenage Sex and Death at Camp Miasma é seu filme mais ambicioso e fascinante até aqui. Uma espécie de Sexta-Feira 13 misutrado com Wes Anderson, este “slasher” caminha na metalinguagem com o objetivo de processar, e até realizar, desejos e questionamentos gerados por uma vida assistindo a Psicose, O Massacre da Serra Elétrica e tantos outros.
Trans, Schoenbrun sempre observou estes temas pela lente queer, e como brinca a abertura do filme – uma montagem que reconta a história de sucesso, esquecimento e redescobrimento de uma franquia fictícia de horror chamada Camp Miasma –, slashers têm muito a oferecer nesse campo. Dos longas inspirados em Ed Gein (citado como influência para o Miasma imaginário também), que entre outras coisas se vestia como mulher (Psicose e Massacre) ao foco central no corpo de jovens mulheres, o gênero tem sido cada vez mais estudado por esse viés, e ao fazê-lo, Teenage Sex and Death constrói uma obra que é parte trabalho de recontextualização, parte paródia e parte homenagem. Imaginando um reboot woke encomendado por um produtor à la Jason Blum, Schoenbrun nos apresenta Kris (Hannah Einbinder), uma jovem cineasta que depois de fazer sucesso em Sundance foi, claro, recrutada para reviver uma marca outrora problemática.
O filme foca na visita de Kris à casa de Billy Presley (Gillian Anderson) – essencialmente a Jamie Lee Curtis de Camp Miasma, mas diferente da atriz de Halloween, essa estrela não emplacou carreira depois de sobreviver a seu Michael Myers – para tentar convencê-la a retornar para este reboot. Em determinado momento da semana que as duas passam juntas, Kris faz um longo discurso sobre seu plano para vencer Hollywood no próprio jogo. Camp Miasma, ela discursa, era algo transfóbico e machista. Ao mesmo tempo, por algum motivo, este também encontrou espaço entre o público LGBTQIA+ e foi, na verdade, o estopim para que ela se descobrisse gay. Como sabem bem os diretores de verdade que assumem franquias hoje, muitas vezes associar sua nova produção a um universo conhecido é a única forma de conseguir trabalhar uma ideia com alto orçamento. Ciente disso, Kris está mais do que disposta a cumprir a desnecessária missão de revelar a origem do Little Death (Jack Haven), o Jason desta saga, se isso permitir que ela aborde conceitos até então acorrentados ao cinema indie numa escala blockbuster.
Para Billy, uma mulher de outra geração cujo ceticismo por pensamentos modernos – “soa bastante como trair”, ela dispara, quando Kris explica o conceito da poligamia – só é superado por sua clara obsessão com o projeto que a levou ao estrelato, enxergar Camp Miasma com esses olhos, ao mesmo tempo românticos e intelectuais, é o caminho errado. Estes eram filmes sobre carne e fluídos, ela diz. Sexo. Sangue. Morte. Desejo. Sobre este último tópico, as duas concordam, e pouco a pouco a conexão entre as duas sai do ramo da arte e entra no pessoal.
Schoenbrun encena essa dança como uma expressão de seus próprios conflitos internos sobre slashers. Como nós, Schoenbrun claramente se diverte ao ver um Freddy Krueger ou Leatherface decapitando vítimas e gerando uma chuva de sangue, e entende o prazer perverso de escalar uma atriz bonita como a tímida e bem-vestida virgem que, até o fim da noite, terá perdido as roupas, a virgindade e o acanho, assim terminando o pesadelo como a última sobrevivente – ensanguentada e traumatizada, mas viva e renovada.
Há, claramente, muita paixão por tudo que essa linha de cinema oferece, e eu não quero dizer apenas amor cego. Por mais que Teenage Sex and Death at Camp Miasma tenha o que os próprios personagens descreveriam como fanservice, o que Schoenbrun coloca em tela é melhor descrito como uma coleção de sentimentos fortes. Isso, sim, envolve amor, mas também confusão, curiosidade, dúvida e, acima de tudo, fixação com o que um dia foi visto em tela. Seu filme, portanto, brilha mais do que nunca quando comunica tudo isso. Há um carinho palpável até pelo lado ruim de algo que vira uma propriedade intelectual – as continuações infinitas, os produtos comerciais, etc. Teenage Sex and Death funciona especialmente como uma celebração, ainda que tenha espaço para perguntas.
Onde o filme não funciona tão bem, porém, é na comédia que busca dar cutucadas nos slashers. A tal desconstrução. Não me entenda errado, há bastante risada aqui, mas elas acontecem principalmente quando Schoenbrun ensaia uma sátira com Hollywood (há uma ligação de Zoom de Kris com o estúdio que é de se perder a compostura), e não tanto quando a brincadeira tem o cinema em si como seu alvo. Quando Teenage Sex and Death brinca, digamos, de Pânico, é quando ele mais parece qualquer outro filme. Afinal de contas, slashers metalinguísticos não são novidade, e mesmo quando Schoenbrun busca inventar uma quinta ou até sexta parede para quebrar, ainda terminamos com algo cujas piadas e piscadelas se tornam previsíveis.
Há uma dualidade parecida no lado mais emocional do longa. Sua pior parte é a reta final, composta por 30 minutos de falsos finais e o que é, essencialmente, uma realização dos sonhos eróticos que títulos como Camp Miasma causaram em Kris (ou, digamos, que Acampamento Sangrento causou em Schoenbrun), e na tentativa de reclamar para si a experiência sexual de ver um filme desenhado para gerar tal reação, Teenage Sex and Death se torna estranhamente monotom. Para algo que em tantas cenas segura em sua mão uma miríade de ideias, tanto contraditórias quanto complementares, o longa termina de maneira curiosamente óbvia.
O inverso disse acontece na maneira pela qual Schoenbrun lida com a figura do Little Death. O assassino psicopata dos filmes de Camp Miasma tem, como Norman Bates e tantos outros vilões destas histórias, um passado complexo quanto a gênero e sexualidade. Isso é algo explorado em algumas frentes por Schoenbrun, mas a melhor delas vem quando Kris e Billy se reúnem para assistir ao primeiro Camp Miasma e somos transportados para o filme dentro do filme.
O clímax, quando Little Death invade o chalé onde estão suas vítimas e começa a matança, é realizado de maneira brilhante, mas seu auge não é cômico ou assustador. Vestido sempre como um capacete que parece um difusor de teto – mas também uma câmera antiga – e uma roupa plástica semi-transparente, Little Death parece se cansar entre um e outro ato violento, e em determinado momento se ajoelha para respirar. Aí, Schoenbrun desacelera e ilumina o interior daquele elmo. Onde antes havia apenas escuridão vemos brevemente os olhos da pessoa que um dia virou este psicopata. Ela não parece surtada ou pervetida, mas triste. Talvez lembrando do bullying que sofreu e dos pais que lhe colocaram neste caminho ou lamentando seu estado atual, Little Death tem um olhar exausto. Numa imagem, Teenage Sex and Death at Camp Miasma escancara tudo o que quer discutir. Vemos o humano por trás do monstro.
Crítica publicada em 14 de maio no Festival de Cannes. Teenage Sex and Death at Camp Miasma será lançado em breve no Brasil pela MUBI.
Teenage Sex and Death at Camp Miasma
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