Zac Efron como Ted Bundy

Créditos da imagem: Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal/Divulgação

Filmes

Crítica

Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal

Boa atuação de Zac Efron segura filme raso e ambíguo sobre as complexas atrocidades do serial killer setentista

Arthur Eloi
25.07.2019
20h11

Tanto pelo aspecto documental quanto por exploração temática, o audiovisual tem forte relações com os horrores da vida real: ao longo dos anos, todas as mídias - dos livros aos games - exploraram histórias sobre serial killers e as complexidades por trás dos casos de assassinatos. Um exemplo disso é Ted Bundy, assassino dos anos 1970 que teve seu nome resgatado através do sucesso da série documental Conversas com um Assassino. Agora, o cinema dramatiza sua história em Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal.

A trama começa em 1969 e mostra o início do relacionamento de Bundy (Zac Efron) com Liz Kendall (Lily Collins) - sua esposa e autora do livro que serve como base para o filme. O cotidiano do casal então é abalado quando Bundy se vê no centro de uma investigação criminal, expondo sua verdadeira perversão. Mesmo que o espectador não tenha profundo conhecimento do caso, é difícil não ficar confuso com a falta de foco na abordagem a um assunto complexo e delicado. Eventualmente se torna claro que o objetivo é explorar a única relação verdadeira do serial killer, mas o caminho até lá é ofuscado por um roteiro que quer muito falar de tudo sem se concentrar em nada.

Lidar com algo delicado assim sempre é uma tarefa árdua: as séries documentais, por exemplo, desenvolvem uma faceta do ocorrido e contextualizam os fatos em uma narrativa tensa. O mesmo não ocorre aqui. O filme frequentemente opta pela ambiguidade ao mostrar Bundy como um homem misterioso e dedicado, capaz de ir até o fim para comprovar sua inocência - algo que sequer deveria estar em questão. Dessa forma, seus crimes horrendos são apenas pincelados aqui e ali, sem que a sua figura também seja desenvolvida o bastante para sustentar a narrativa, ainda que Efron segure muito bem a barra com carisma e ameaça em partes iguais.

O ritmo e a montagem complicam tudo. O diretor Joe Berlinger tem vasta experiência em produções documentais, mas isso não é evidente em A Irresistível Face do Mal, que é picotado como um vídeoclipe e altamente inconsistente em tom: um (raro) momento de tensão, por exemplo, pode ser seguido por uma cena embalada a animadas músicas setentistas. O longa resume 20 anos no espaço de duas horas e o resultado é um conto sobre os crimes que não se aprofunda em nada, mas tenta resumir pessoas, traumas, relacionamentos complicados e violência real da mesma forma que os parágrafos de abertura de um artigo da Wikipedia: é possível entender o contexto geral, mas nenhum conhecimento adicional - motivação, cobertura da mídia, dificuldades da investigação, padrões de ataque, etc - é adquirido sem leitura adicional.

Porém, Ted Bundy não é de todo ruim. Além da forte presença de Efron, Berlinger entrega pontuais cenas de peso, como uma fuga do tribunal ou então o interrogatório final do assassino. O problema é ser um retrato extremamente raso de um assunto cheio de camadas. É irônico que a distribuição brasileira aconteça nos cinemas, porque A Irresistível Face do Mal parece feita sob medida para a Netflix, que distribui o longa no exterior: ver os créditos finais subindo praticamente pede por uma maratona de Conversas com um Assassino para realmente entender as atrocidades e o impacto de Bundy.

Nota do Crítico
Regular